Corazón de luto: fenómeno!

novembro 27, 2008
Corazón de Luto (1960)

A capa do primeiro LP solo do argentino Chacho Santa Cruz: Corazón de Luto (1960)

Que Coração de luto foi o maior sucesso da carreira de Teixeirinha – e um dos mais importantes na história da fonografia brasileira – ninguém duvida. Números quase sempre desconexos apontam para uma vendagem superior a 20 milhões de discos contendo a canção, um recorde nacional e – dizem muitos – internacional. O que nem todo mundo sabe é que Coração de luto foi sucesso também fora do Brasil, não apenas na voz de seu compositor, mas ainda na de outros artistas.

 

Não há como precisar quando tudo começou, mas é possível estabelecermos alguns marcos. Teixeirinha lançou sua toada-milonga autobiográfica em julho de 1960 – tendo-a gravado possivelmente alguns meses antes. No mesmo ano, de forma surpreendente, saía na Argentina (pelo selo Microfon) o primeiro LP solo do cantor popular Chacho Santa Cruz. O nome do disco: Corazón de Luto – “Una lágrima que canta” (a foto da capa deste álbum ilustra a matéria). Isso mesmo, Coração de luto foi traduzida para o espanhol e lançada quase simultaneamente no país vizinho, se transformando no maior sucesso da carreira do próprio Chacho – e dando título a seu primeiro álbum.

 

A tradução gravada por Chacho – e feita sabe-se lá por quem – tratou de ser fidedigna a composição original, efetuando apenas as alterações imprescindíveis. O curioso é que Corazón de luto acabou ganhando um tom maior de dramaticidade, algo que a própria língua hispânica proporciona. Talvez a isso se deva o sucesso da versão que – daí por diante – foi gravada periodicamente por cantores de fala castelhana.

 

Antonio Tormo, outro cantor bastante popular na Argentina, fez de Corazón de luto um de seus principais sucessos ainda nos anos 1960. Sua versão, em ritmo de zamba (não confundir com samba), trazia guitarras e acordeão acompanhando a dolorida interpretação de Tormo. O resultado ficou ímpar e divide opiniões quanto à qualidade. De qualquer forma, a composição passou a fazer parte efetiva do repertório do argentino, constando em quase todas as coletâneas como um de seus grandes êxitos.

 

Ainda na Argentina, agora em 1973, foi a vez de um dos maiores nomes do chamado folclore nacional gravar Corazón de luto. Tarrago Ros (y su conjunto), lançaram pela Odeon o LP “Tengo que volver a mi pueblo”, no qual traziam a canção de Teixeirinha na sétima e última faixa do lado A. Nesta ocasião, Tarrago participou da gravação tocando o acordeão, ao passo que o cantor Oscar Rios entoou os tristes versos que tão bem falam do sentimento de orfandade. A contracapa do álbum registra a faixa como “rasguido doble”, em bom português, rasqueado duplo.

 

Não se sabe quando, mas outro argentino de nome Chacho gravou Corazón de luto pelos idos da década de 1970. Desta vez estou falando de Chacho Flores, que obteve grande êxito ao cantar a canção de Teixeirinha em ritmo de fox, acompanhado de sua Orquestra Argentina. Não se sabe muito acerca de tal gravação, assim como também não tenho maiores informações sobre Darío Coty, um outro cantante hermano que fez fama ao apresentar o famoso tema de Teixeirinha, e nem do Conjunto Ivoti – que também gravou a canção em data não identificada.

 

A quantidade de grupos e cantores argentinos que gravaram Coração de luto em sua versão em espanhol surpreende. Mas eles não foram os únicos. Na Bolívia, Los Kory Huayras – um grupo folclórico de origem e tradição indígena – levaram a composição ao CD Por siempre, mas uma vez dando-lhe ritmo de zamba. Curiosamente, neste disco, o espaço reservado ao nome do autor da faixa está preenchido com as iniciais “D.R.”, algo que se pode identificar como “desconhecido” ou “não identificado.

 

Por último, e mais recentemente, cabe citar o também boliviano Yuri Ortuño. Ele e seu conjunto não apenas regravaram Corazón de luto com ritmo e instrumental reelaborado (e muito bom, na minha opinião), como também produziram um videoclipe onde a música ganha vida, e onde aspectos já tradicionais da obra original são trocados por uma visão mais atual da música. O vídeo com a composição está no fim do texto e vocês podem assisti-lo.

 

Em 2007, o gaúcho Ernesto Fagundes incluiu uma versão de Coração de luto em seu último CD. Ele optou por regravar o tema em espanhol, afirmando que a canção se adequava melhor ao idioma dado o grau de sua dramaticidade. Possivelmente esta seja a mais atual regravação do sucesso, embora tenhamos motivos para acreditar que não será a última. Com base numa pequena pesquisa é possível descobrir a quantidade de versões existentes. Dizem – o próprio Teixeirinha afirmava – que Coração de luto teria mesmo sido regravada em inglês, francês e até russo. Confesso que gostaria de ouvir tais versões…


HISTÓRIAS DA VIDA

novembro 20, 2008
Na foto, a familia Mistrello e Mary Terezinha (de branco, usando óculos escuros) no Rancho do Capivari

Na foto, a família Mistrello e Mary Terezinha (de branco, usando óculos escuros) no Rancho do Capivari

A pequena Liane Teixeira na casa da familia Mistrello, no bairo Santo Antônio (Porto Alegre)

A pequena Liane Teixeira na casa da família Mistrello, no bairo Santo Antônio (Porto Alegre)

No dia 3 de novembro recebi um email cuja remetente me era desconhecida. Seu nome: Daniela Mistrello. Lembrei que dias antes alguém com um nome parecido (na verdade era o mesmo, eu é que não me recordava) havia pedido meu endereço de email para contato.

 

Abri a caixa de mensagens e vi que se tratava de um pequeno texto. Era alguém que havia buscado informações sobre Teixeirinha e Mary Terezinha na Internet e que acabou – como tantos – se deparando com este blog. Porque Daniela procurava por informações sobre os cantores mais lembrados da história do Rio Grande do Sul? Simples. Ela queria contar a sua própria história com eles.

 

Sem mais delongas, vai aí o texto que ela escreveu e que me pediu para que publicasse junto com algumas fotografias da época:

 

Olá Chico,

 

Me chamo Daniela Mistrello, tenho 33 anos e passei boa parte de minha infância acompanhando Teixeirinha e Mery Terezinha. Vou te contar como: minha mãe morava ao lado da casa da Mery, no bairro Santo Antônio (Porto Alegre), com isso me relacionava com a Liane (filha de Teixeirinha e Mary). Aliás, fomos criadas juntas, unha e carne.

Onde uma ia, a outra estava enrabixada!

Fomos a muitos shows juntas. Me lembro como se fosse hoje de shows que íamos em circos. Era muito engraçado, pois não parávamos quietas.

Íamos o percurso todo brigando para ver quem ia sentar no meio, no Alfa Romeu que “Tio Teixeira” (era assim que eu o chamava) tinha.

Toda vez que a Liane ia para a casa do pai, eu ia junto. Muito banho tomei naquela piscina com formato de cuia. Eu era como se fosse uma filha para ele.

Com a separação do casal e a ida da Mery para os Estados Unidos, fiquei um tempo distanciada da Liane. Em certa ocasião que ela esteve em Porto Alegre, Tio Teixeira foi me buscar para que pudéssemos ficar juntas.

Me fui, de mala e cuia, para casa dele! Ele me levava e buscava na escola diariamente para que pudéssemos passar a maior parte do tempo juntas!

Era uma amizade muito forte, forte mesmo!

Com o passar do tempo, e com a distância, fomos nos separando.

Em algumas ocasiões que Liane estava em Porto Alegre, nos falávamos, mas não era com a mesma intensidade de antes.

Passado muito tempo sem ter notícias da Liane resolvi buscar alguma pista para reencontrá-la.

Pesquisei no Google, Orkut, até q lembrei do Vitinho, Teixeirinha filho. Com ele consegui o telefone do Xandi (Alexandre – irmão de Liane). A partir daí, só alegrias.

Consegui contato com a Liane e nos reencontramos! Foi muito emocionante!

Passamos horas conversando, colocando os assuntos em dia, relembrando da infância… Muito bom.

Reencontrei também o Xandi e a Mery. ADOREI!

Hoje tenho contato direto com a Liane, apesar de ela estar morando na Itália. Mas a Internet facilita, e como!, as nossas vidas.

 

Aí está, portanto, a bonita história de Daniela. Hoje, ela vive em Porto Alegre e curte uma amizade sincera com Liane, graças às maravilhas da Internet. O que eu posso dizer, honestamente, é que fico feliz por receber uma história bonita como esta e de ter a oportunidade de publicá-la neste espaço.

 

Afinal, esta também é uma das missões do Revivendo Teixeirinha: contar a sua história!


Entrevista com Mary?

novembro 7, 2008

A Cícera Cristina deixou um comentário com as seguintes perguntas:

“A Mary [Terezinha] nunca foi ao túmulo do Teixeirinha? Chico, você conhece a Mary pessoalmente? Não teria como entrevistá-la?”

Cicera: se a Mary esteve alguma vez no túmulo de Teixeirinha não posso precisar. No dia do sepultamento, ela não foi. Nos Finados dos anos seguintes, também não há notícias de sua presença. Se foi, a imprensa não soube. Pode ter acontecido em alguma ocasião, mas só a própria acordeonista é capaz de revelar.

Ainda não tive a feliz oportunidade de conhecer Mary Terezinha pessoalmente. Entrevistá-la é um sonho, mas no dia em que ocorrer (se ela permitir) prometo fazer uma postagem no blog revelando alguns detalhes.


PASMEM: “CORAÇÃO DE LUTO” É PLAGIADA EM PORTUGAL

setembro 13, 2008

A canção “Coração de Luto”, grande sucesso de Teixeirinha, já foi gravada em diversos países, nas mais diferentes e esquisitas versões que se possa imaginar (prometo um texto sobre isso em breve, pois já tenho algum material). Tudo bem, a adaptação da letra e música são livres, desde que respeitados os princípios de originalidade.

Mas parece que não foi isso o que aconteceu lá em terras lusitanas. Eleito a “Jovem Revelação 2006” da música portuguesa, o cantor Leandro surgiu neste mesmo ano com seu primeiro álbum de “músicas originais”, compostas por um renomado produtor da música popular lusitana, chamado Nel Monteiro. Segundo o blog DiscoDouro, Leandro apareceu pela primeira vez no programa “Você na TV” (ITV) – se bem me lembro, a propósito, esta é a atração do polêmico João Kleber (ex-RedeTV!) em além-mar. Pois bem: Leandro teria figurado na televisão com o intuito de prestar uma homenagem a sua mãe (Ana Paula) e à avó (Zélia). Foi lá que ele cantou a composição “Meu coração está de luto”, que passou a fazer enorme sucesso a partir de então, constando como o “carro-chefe” de seu primeiro CD.

Não há a menor dúvida de que “Meu coração está de luto” é um plágio de “Coração de luto”. Os acordes iniciais são idênticos (apesar da tentativa não muito bem sucedida de se alterarem ritmo e instrumentação básica) e a letra não pode nem mesmo ser caracterizada como “adaptação”, pois versos foram suprimidos e remontados de forma a “disfarçar” a composição. Expressões como “dos desgostos que há no mundo” e “terra santa” substituíram de forma grotesca “o maior golpe do mundo” e “campo santo”, isso só para dar alguns pequenos exemplos. Como forma de despiste, o “compositor” Nel Monteiro pôs nos últimos versos a morte da avó do intérprete, uma nítida tentativa de dramatizar ainda mais a história.

Nem as adaptações em língua espanhola (muito boas, a propósito) tornaram “Coração de Luto” tão díspar. E o pior é que, segundo sites portugueses consultados, Leandro divulga “Meu coração está de luto” como uma história verdadeira e sua, uma homenagem às duas figuras mais importantes de sua vida. Bem que ele podia ter gravado a canção original… Ficava menos feio e não se carecia de adaptações que beiram o ridículo. Lembremos que ambas são composições de língua portuguesa.

Ah, antes do arremate, deixo a vocês o encargo de assistirem ao videoclip de “Meu coração está de luto”. Vejam e comparem!

Esta matéria é uma dica do amigo e colaborador Arnaldo Guerreiro, direto de Portugal.


As minhas 11 mais

agosto 20, 2008

“Qual a sua música favorita de Teixeirinha?” Quase todos que me conhecem já fizeram esta pergunta. Também, pudera. Já são 4 anos de estrada enquanto pesquisador e mais pelo menos outros 4 como admirador deste que é um dos maiores acervos musicais produzidos por um único cantor. E nessa jornada, foram mais de 500 canções coletadas e ouvidas à exaustão (e sempre!).

Pois bem, depois de tanto tempo, resolvi arriscar um “ranking” (bem pessoal, sujeito a toda e qualquer crítica e manifestação contrária) das minhas 11 músicas prediletas do Rei do Disco (eram 10, mas o impasse foi grande e mantive mais uma). Vocês perceberão que incluí alguns clássicos (não todos), canções pouco conhecidas e até mesmo gravações que Teixeirinha fez a partir de letras compostas por outros autores. Para cada canção, uma brevíssima análise. Não se surpreendam, tem de tudo! E está em ordem decrescente de acordo com a preferência:

11 – Uma volta no pago (1963) “Vai chorando gaita Todeschini malvada!”. Assim mesmo, “bem largado”, Teixeirinha abre este que é um dos xotes mais admiráveis de sua carreira. Como tantos, conta uma estória, saúda os fronteiriços, faz piada com a vida e termina com o “rapto” (consentido) de uma prenda, “fazendo peso na garupa do alazão!”. Desde sempre me identifico (e muito!) com esta composição. É por isso que ela aparece no 11º (mas não menos importante) lugar da listagem.

10 – Querência amada (1975) Um xote, um clássico e um hino popular. Eleita a música dos gaúchos, esta deve ser a mais conhecida das composições de Teixeirinha no Rio Grande do Sul. Mesmo os que não admiram o cantor, têm enaltecido a beleza dos versos feitos “em memória de meu pai” – como afirmou Vitor Mateus. Não é a minha canção favorita, mas merece presença na lista. Uma belíssima homenagem às coisas do sul.

09 – Baile de mais respeito (1965) A guerra entre Gildo de Freitas e Teixeirinha rendeu canções (ou seriam batalhas?) homéricas. Desde as cobras engolidas pelos compadres até as armas (adaga, facão e por aí vai) utilizadas na peleja, valeu de tudo. Quando “Baile de respeito” saiu num LP de Gildo, Teixeira retrucou com um de mais respeito ainda. O resultado foi um impagável arrasta-pé cheio de valentia (com direito a rajada de balas no chapéu de um tal Chico Torto!).

08 – Desafio do martelo (1969) Se tem tango, xote e milonga, tem que ter desafio! Foram muitos os candidatos, quase todos muito bons. Fiquei com o meu favorito, aquele onde Teixeirinha é chamado de “frango pelado” e Mary vira “macaquinha de botina”. Uma primazia de trova, num estilo completamente dinâmico e inteligente.

07 – Vingança (1971) Teixeirinha gravou mais de 40 composições escritas por diferentes autores. Em algumas, se saiu esplendidamente bem. A sétima posição desta listagem traz a gravação de um dos grandes clássicos do poeta Lupicínio Rodrigues. Além do arranjo de extremo bom gosto, vale a pena salientar a interpretação de Teixeirinha, serena e íntima como devem ser as canções do velho Lupi. Digna de aplausos!

06 – Vida fantasia (1969) Que eu sou tangueiro, ninguém duvida. E não incluir um tango nessa listagem seria um despropósito. Escolho então o meu favorito, gravado no “Volume de prata” (Copacabana). Trata-se da estória de um homem apaixonado que não é correspondido por sua amada, pois é pobre, “simplesmente um trovador”. É tango no rigor do método, daqueles que inspiram dança e cantoria!

05 – Será que pecamos (1980) Verdadeira pérola! Não é a última gravação sensacional de Teixeirinha, mas é com certeza uma das mais significativas. A união gaita-violão-violinos dá a essa milonga um ar moderno e de grande identificação popular. Além de tudo, conta uma bonita estória de amor envolvendo um triângulo amoroso cheio de paixões!

04 – Coração de luto (1960) Clássico é clássico. E o maior de todos não pode ficar de fora mesmo de uma lista pessoal. Além de histórica, a toada-milonga autobiográfica gravada em 60 resume o talento de Teixeirinha para contar suas próprias histórias. Melodia tristíssima, tantas vezes “pichada” pela crítica, mas que sobrevive ao tempo com várias regravações e, dizem, sustentando o recorde de canção mais vendida na história do Brasil (e do mundo, segundo rumores).

03 – Paraguaia linda (1970) Uma polca (!) ocupa a terceira posição do “ranking”. A estória do peão que viajou até o Mato Grosso e conheceu uma paraguaia de parar a boiada se desenvolve em alguns atos: primeiro eles se conhecem e a paixão surge; depois, ele retorna ao Rio Grande com a promessa de voltar para buscá-la; no final, o retorno. Mas aí a paraguaia linda “há dias tinha morrido”. Triste fim para uma estória dinâmica e que até determinado ponto se encaminhava para um final feliz. Coisas de Teixeirinha… Essa chegou a furar o disco de tanto ouvir!

02 – Porto Lucena (1974) Composição pouquíssimo citada, raras vezes remasterizada e quase sempre esquecida nos programas de rádio e TV dedicados a Teixeirinha. Uma história de amor no ritmo balanceado e que, ao mesmo tempo, homenageia uma das cidades fronteiriças do Rio Grande do Sul. O destaque fica para o duo com Mary na reprise dos versos. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi essa!

01 Gaúcho andante (1962) Teixeirinha era chamado de Rei do Disco, mas também podia ter recebido a denominação de rei do xote. Compôs e gravou muitos, a maioria deles no período inicial da carreira (1959-1967). Na minha modesta opinião, este é o melhor de todos (de quebra lidera a minha lista de canções favoritas também). Descreve a rotina de um autêntico “gaúcho largado” que anda “de pago em pago, longe da vaidade”. É um dos grandes momentos da carreira do cantor e uma espécie de “música-tema” da minha vida.

Então, ficaria bem uma coletânea com estas? Ao menos no meu aparelho de CDs tocaria muito!


Será?

agosto 8, 2008
Semana passada estive no Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, em Porto Alegre, e me deparei com esta belezura da foto acima. Trata-se de uma câmera de TV fabricada pela RCA Television (Houston, EUA) que pertenceu à maquinaria da extinta TV Piratini, Canal 5 da capital gaúcha. Pra quem não sabe, o 5 era a retransmissora local da igualmente extinta Rede Tupi de Televisão, primeira emissora da América Latina.

Quando avistei o aparelho logo imaginei que esta poderia ser uma das câmeras que aparecem nos filmes “Ela tornou-se freira” e “Teixeirinha a 7 provas”. Se confirmada a informação, estaria diante de um equipamento que fez parte também da produção do “Teixeirinha comanda o espetáculo”, programa capitaneado pelo Rei do Disco na Piratini dos anos 1970. Entusiasmado, procurei por maiores informações e me surpreendi em descobrir que a logomarca estampada na RCA é a mesma utilizada pela afiliada da Tupi na primeira metade dos 70.

Mas… se ela ajudou a transmitir os programas de Teixeirinha ou não, é impossível saber. Tentei comparar com as que aparecem nos filmes (a foto abaixo é de um trecho do “Teixeirinha a 7 provas”). São realmente muito semelhantes, embora de cores distintas.

E aí, alguém tem se arrisca a brincar de jogo dos sete erros?

Uma última informação: a câmera que deu origem ao texto está exposta no Museu da Comunicação em Porto Alegre e faz parte da exposição “RBS: 50 anos no ar”. Vale a pena conferir!


SUBMARINO ESCORREGANDO

julho 19, 2008

O Augusto chamou a atenção para dois interessantes “cliques” no site Submarino. O primeiro (mais acima) é de um CD “Dose Dupla” indisponível para a compra. Seria um disco reunindo dois LPs: o “25 anos de sucesso” e o “Guerra dos Desafios”. Jamais ouvi falar neste CD e nem mesmo conhecia a capa. Além disso, não há informações sobre gravadora, músicas do disco ou mesmo sobre alguma forma de compra.
O segundo “escorregão” é no mínimo engraçado. Na descrição do álbum “Os Gigantes – Teixeirinha” – que é uma conhecida coletânea com grandes sucessos compostos e cantados por Teixeirinha (e lançados pela Sony-EMI) – o site diz:
Esta coleção reune os grandes sucessos da “extinta” dupla gaúcha sertaneja de raiz, Teixeira & Teixeirinha, agora na voz de Teixeirinha. Vale a pena conferir “Saudade de Passo Fundo”, “Cobra Sucuri”, “Coração de Luto” e “Amor de Gaúcho”

Descrição no mínimo cômica! Submarino já teve dias melhores…
PS: Para ampliar as imagens basta clicar sobre elas. Na segunda, frisei o texto tosco numa caixa vermelha.

RANCHO DO CAPIVARI – Parte II

julho 19, 2008
Na semana passada, mostrei 8 fotos inéditas do conhecido Rancho do Capivari, fazendo localizada em Capivari do Sul e que pertenceu durante cerca de dez anos a Teixeirinha e Mary Terezinha. O Rancho foi vendido em 1983 e, novavamente alguns anos mais tarde. Hoje é uma propriedade de 27 hectares pertencente a seu Jair, que transformou a fazenda numa pousada (o site para mais informações é www.ranchodocapivari.com). Em 5 de julho de 2005, a Prefeitura Municupal de Capivari do Sul inaugurou um marco na propriedade assinalando o ponto de onde as tropas de Garibaldi partiram para dar apoio à Revolução Farroupilha em Laguna, Santa Catarina. Deixo agora mais fotos tiradas pelo amigo Nilton Tavares em dezembro de 2007. Divirtam-se!

Vista da casa principal do Rancho

À esquerda, o galpão; à direita, uma casa grande com diversos quartos para hospedagem de artistas de filmes, amigos e músicos

Cozinha do Rancho, com destaque para a mobília

Vista interna da sala, com os móveis da época

O primeiro “rancho”, construído antes das demais edificações


RANCHO DO CAPIVARI – Parte I

julho 12, 2008

“Comprei um rancho bem na beirada do rio / pra minha amada um lindo rancho construí / convidei ela pra madrinha de batismo / e pôs o nome Rancho do Capivari”. É assim a primeira estrofe de Rancho do Capivari, música gravada por Teixeirinha em 1978 e na qual o artista saudava um de seus xodós, a fazenda que ele e Mary Terezinha adquiriram em meados dos anos 1970.
O Rancho do Capivari (localizado no município de Capivari do Sul, próximo a Viamão) era, na época, uma propriedade com cerca de 170 hectares. De natureza exuberante e importância histórica (foi de lá que Garibaldi partiu com os lanchões em 1839, a fim de alcançar Laguna/SC), o local pertenceu a Teixeirinha e Mary até 1982. Durante estes anos, os artistas não apenas gravaram músicas em reverência à estância (como exemplos temos Lindo Rancho, Rancho do Capivari e Adeus Lindo Rancho), mas também investiram alguns milhares de cruzeiros valorizando a área com investimentos variados. A seguir, vamos conferir uma coletânea de fotos enviada pelo amigo Nilton José Tavares, que esteve no rancho em dezembro de 2007 e conferiu, de perto, o lugar. Em cada fotografia trago alguns comentários feitos pelo próprio Nilton.

Uma vista da churrasqueira do galpão. Puro conforto gaúcho…
Vista frontal do galpão

Cama que era usada por Teixeirinha

O Lindo Ranho propriamente dito – uma casa de sítio muito bem feita em tijolo a vista…

Um trapiche muito bem feito ao lado da casa principal que servia para pescarias…

Vista de um estúdio (esquerda) e um quiosque às margens do Rio Capivari

O Rio que margeia toda a propriedade.

Vista a esquerda do estúdio feito para compor às margens do Rio Capivari, a direita um quiosque com churrasqueira e toda estrutura para um bom churrasco…
Aguardem, semana que vem tem a parte II, com a continuação das fotos!

Todas as imagens são de autoria de Nilton José Tavares.


A ALMA DO NEGÓCIO

julho 4, 2008
A serviço das Pilhas Everady, Teixeirinha aparece nos cartazes promocionais durante o filme “Ela tornou-se freira” (1972)

Antes de ser cantor de sucesso, Teixeirinha foi engraxate, feirante e até dono de uma barraca de tiro ao alvo, em Passo Fundo. Em todas estas ocasiões, o futuro “Rei do Disco” estava envolvido com o comércio, atividade da qual – de certa maneira – jamais se desligou.

Quando os louros da fama cobriram Teixeirinha, o dinheiro foi uma conseqüência natural. Milhões de discos vendidos, shows, programas no rádio e na televisão e outra infinidade de atividades engordaram rapidamente as contas bancárias do fenômeno gaúcho. Como comerciante que era, Vitor Mateus Teixeira logo entendeu que aquela fortuna poderia ser ainda maior se bem gerida e aplicada. E foi assim que ele adquiriu fazendas (não muitas, mas algumas), imóveis (os quais mantinha alugados) e, a partir de 1971, fundou sua própria companhia cinematográfica, a Teixeirinha Produções Artísticas.

De todos os investimentos do “Gaúcho Coração do Rio Grande”, o cinema é o que mais impressiona, mas deve ter sido, também, o que trouxe menos lucros. Como se sabe, os filmes de Teixeirinha tinham como intuito difundir a imagem do cantor pelo interior do Brasil, fazendo com que seu público – que não podia comprar discos, ou que não tinha condições de assistir o ídolo ao vivo – estivesse mais próximo do astro.

Para levar adiante a empreitada do cinema – que, ao final, não trazia grandes lucros financeiros, mas sim prestígio e contato ante o público – Teixeirinha recorreu aos seus dons de mercador desde cedo. A partir de sua segunda película – “Motorista sem limites”, produzido em 1969 em acordo com a Interfilms – a inserção do que hoje chamamos de merchandising tomaria conta das produções. Este era um recurso convencional no cinema brasileiro desde muitos anos e seria muito bem explorado pelo comerciante Teixeirinha.

Em “Motorista sem limites”, aparecem diversos “reclames” (assim eram chamados os comerciais naquela época). Por exemplo: postos de gasolina, apenas os Ipiranga; refrigerantes, só mesmo os Minuano. E os comerciais apareciam das mais esdrúxulas maneiras. Bastava um bar para que surgisse uma imensa placa mencionando o refresco Minuano. Era só ter algum carro no filme (e sempre haviam muitos!) e pronto: lá estavam os postos Ipiranga (no início) e, mais tarde, Shell (o próprio Teixeirinha teria um posto de gasolina da rede).

A cada filme, as propagandas eram mais freqüentes. Em “Ela tornou-se freira” (1972), surgiam as pilhas Everady, das quais Teixeirinha era garoto-propaganda ao lado de ninguém menos do que Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”. No caso das “pilhas do gato”, o curioso era perceber os slogans utilizados na campanha publicitária. Quando Teixeirinha se referia às baterias, sempre recorria a ditos gaúchos. Assim, as pilhas Everady duravam mais do que “praga de madrinha” ou do que “bronca de gago”. Ah, elas também falavam mais do que “papagaio com insônia”!

Com o tempo, os comerciais do rádio foram trazidos para o cinema. Em “Tropeiro Velho”, o Pó Pelotense (tradicional anunciante dos programas de Teixeirinha, que até hoje segue “na família”, patrocinando o “Querência Amada”, da Rádio Rural) roubou a cena sendo amplamente anunciado por Jimmy Pipiolo. Em “Teixeirinha a 7 Provas”, foi a vez da Infalivina (do mesmo laboratório Saúde, fabricante do Pó Pelotense) enfeitar um imenso balão que aparece nas tomadas finais do longa. Já em “A quadrilha do Perna Dura”, quem se sobressaiu foi o fortificante Kiotônico e a erva-mate Cultivada (“A erva-mate do Teixeirinha!”.

Nos filmes, a fórmula dos merchandisings era simples e incomodava a crítica especializada. Quando, por exemplo, o menino Teixeirinha se afasta do cemitério em que acabara de sepultar a mãe (no filme “Meu pobre coração de luto”), a tristeza da cena não impede que um outdoor imenso ocupe quase toda a tela com a mensagem “Manah, se plantando dá!”. Isso sem falar nas incontáveis “conversas de galpão” onde sempre sobram sacos com adubo Trevo e engradados de refrigerantes Minuano.

Se a crítica gostava ou não, ou mesmo se estas “incursões comerciais” eram cabíveis ou ridículas, o importante mesmo é que elas foram responsáveis por boa parte da continuidade do cinema de Teixeirinha. E é bom lembrar: apesar da aparente despretensão artística, a Teixeirinha Produções foi a única companhia cinematográfica ativa e com produções consecutivas fora do eixo Rio-São Paulo durante os anos 1970. Talvez tenhamos que agradecer aos refrigerantes Minuanos, às pilhas Everady e até à Infalivina por isso!


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