O precioso

Fevereiro 1, 2009

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Quando a gente imagina que já viu quase tudo em se tratando dos discos de Teixeirinha, aparecem surpresas. Domingo passado eu estava navegando pela Internet quando me deparei com o site Ventania, uma loja virtual especializada na venda de discos usados. Só por curiosidade digitei a palavra “TEIXEIRINHA” no campo de busca da página. Apareceram 10 ou 15 resultados, a princípio discos facilmente encontráveis tanto nos sebos reais quanto nos virtuais.

Só que de repente um dos registros me chamou atenção. O título do disco: “Teixeirinha põe o seu estoque de pilhas em alta rotação!”. Fiquei surpreso, pois jamais havia visto/ouvido algo sobre ele. Abri o campo de detalhes e, em 5 minutos finalizei a compra, crente de que havia adquirido o mais raro ítem da minha (ainda pequena) coleção.

A capa da jóia rara é esta aí da imagem acima. Trata-se de um disco compacto simples, contendo duas canções – uma de cada lado – compostas por Teixeirinha como parte de seu acordo comercial com a Julio Ribeiro Publicidade (de Porto Alegre) e as Pilhas Eveready (a famosa “Pilha do Gato”). Não traz data, mas pelos meus cálculos foi gravado entre 1970 e 1971, quando Teixeirinha era garoto-propaganda das tais pilhas (junto com Luiz Gonzaga). Muito provavelmente foi gravado e prensado em Porto Alegre mesmo, embora eu não tenha maiores indícios disso.

De toda a maneira, é certamente um disco muito especial e raro (opinião avalizada pelo grande colecionador d’além-mar Arnaldo Guerreiro). Foi gravado pela Scatena Studios de Som Ltda. Que gravadora é esta e onde funcionava, é um mistério a ser desvendado. O que está muito claro é o caráter promocional do compacto: no lado A, ele traz A pilha e o gato (uma adaptação de Gaúcho de Passo Fundo, composta pelo próprio Teixeirinha, justificando o uso das pilhas Eveready em aparelhos eletrônicos); já no lado B, Teixeira e Mary Terezinha cantam A pilha e o motorista (adaptação de Motorista do progresso, com mais ênfase na utilidade das “Pilhas do Gato”).

O compacto, de código N.A.C. 1313, possivelmente não foi revendido à época de seu lançamento. É provável, aliás, que sua difusão (limitada, imagino eu) tenha se dado apenas através de alguma promoção envolvendo as pilhas. Digo isso, pois na contracapa do disco encontra-se a impressão: “Cortesia da EVEREADY – UNION CARBIDE DO BRASIL S/A”. Por esta razão,este disco não é conhecido e não faz parte (ao menos até agora) da discografia oficial do cantor. Tudo isso o transforma em uma peça ainda mais interessante!

Enfim, sem sombras de dúvida o compacto “Teixeirinha põe o seu estoque de pilhas em alta rotação!” se trata da peça mais rara que já passou pelas minhas mãos. Em breve postarei aqui mais fotos dele e, assim que possível, vou upar um vídeo no YouTube mostrando esta beleza em ação. Assim vocês poderão ouvir um pouco das músicas engraçadas e sensacionais gravadas neste pequeno e impressionante disco.


DISCOMENTANDO: “Disco de ouro” (1966)

Novembro 20, 2008
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“Disco de Ouro” é o antepenúltimo LP de Teixeirinha lançado pela gravadora Chantecler antes da transferência do artista para a companhia Copacabana. É também um dos discos que bem representa esta fase inicial do cantor, quando ele ainda sustentava o epíteto “O Gaúcho Coração do Rio Grande” e recém começava a explorar outras faces de sua carreira.

 

O álbum, cujo código é CMG 2402, foi lançado em abril de 1966, quando já se falava muito sobre a última novidade de Teixeirinha até aquele momento: sua estréia no cinema. “Coração de Luto” seria lançado um ano depois, pela Leopoldis Som, com grande sucesso. Mas não eram apenas as aventuras cinematográficas do Rei do Disco que vinham dando o que falar.

 

“Disco de ouro” começa com uma outra sensação daquele momento. No LP “Bate, bate coração” (Chantecler, 1965), Teixeirinha havia composto a canção Desafio, uma trova gaúcha onde ele provocava Mary Terezinha e, em resposta, recebia versos desaforados da sanfoneira. Foi o início de uma grande idéia. “Disco de ouro” começa então com Desafio pra valer, uma resposta (ou parte 2) a trova do disco anterior. Nesta gravação, quem começa cantando é Mary Terezinha e ambos trocam farpas no disco, utilizando-se de expressões como “galo nanico” e ao som de entusiasmados aplausos de uma platéia (provavelmente fictícia).

 

Curioso na distribuição das faixas de “Disco de ouro” é perceber que as canções foram divididas de acordo com algumas temáticas. Assim, Desafio pra valer e Mulher ciumenta – ambas composições que enfocam o humorismo – aparecem juntas, ocupando a primeira e a segunda faixa do LP. Na seqüência, o tango Não minha senhora e a valsa A carta da despedida – falando de questões amorosas – se complementam nos espaços 3 e 4. No fechamento do lado A, surge Pobre e rico de amor e O filme Coração de Luto, composições de temáticas variadas.

 

O instrumental deste que é 12º LP contendo músicas inéditas de Teixeirinha é muito semelhante ao dos demais discos desta fase. Gaita, violão, contrabaixo, percussão e – vez que outra – violinos e viola compõem o conjunto de instrumentos musicais básicos, todos eles muito bem executados gerando uma sonoridade simples, mas “limpa”, isto é, de fácil assimilação. Já nesta época, a presença de Mary no acordeão é notável.

 

No lado A do long-play destaco a composição O filme Coração de Luto como altamente representativa. Ela conta, em seus versos, a idéia de Teixeirinha em filmar a história de sua própria vida. A primeira vista, há quem a confunda com Coração de Luto, já que a melodia e alguns versos iniciais são muito parecidos. Entretanto, Teixeirinha consegue contar alguns detalhes das filmagens de sua primeira obra cinematográfica com primazia, transformando a canção numa espécie de anúncio oficial do filme.

 

O lado B de “Disco de ouro” começa (assim como o A) com uma temática humorística. Salada de frutas é uma ousada brincadeira onde Teixeirinha compara partes de uma mulher com frutas. Antes mesmo das mulheres-melancia ou das garotas-jabuticaba, estava o Rei do Disco comparando bustos com laranjas, olhos com uvas e por aí vai.

 

A faixa 2 da face secundária é Motorista do progresso, uma toada em homenagem aos motoristas de todo o Brasil. É um gênero de canção bastante comum na carreira de Teixeirinha, que homenageou caminhoneiros, operários, taxistas e peões de formas variadas e, muitas vezes, direta. Madrugada (faixa 3) é o segundo tango do LP, numa fase onde Teixeirinha realizou diversas gravações com o ritmo comumente conhecido como portenho. Baralho sem coringa (que ocupa o quarto conjunto de frisos do disco) é uma milonga que discute algo como uma filosofia de vida, sob o prisma de alguém que foi derrotado na grande rodada de cartas da existência.

 

Pé de salseiro e Coração sem amor, são as canções que fecham “Disco de ouro”. A primeira é uma tristíssima toada sobre a morte de um certo Zequinha, roubado e assassinado debaixo de um pé de salseiro (que, depois do crime, viram mal assombrado). A outra composição é um raro chamamé (muito embora talvez o gênero fosse chamado de outra forma naquele momento) executado com violão, gaita e violas onde Teixeirinha se debruça sobre o tema dos desencontros amorosos. São canções distintas e de temáticas diferentes, uma característica viva deste LP.

 

“Disco de ouro” traz Teixeirinha na capa segurando, em uma das mãos, o violão e, na outra, um estojo contento seu primeiro disco de ouro – recebido pela alta vendagem de Coração de Luto. O cenário da foto é um estúdio, onde aparecem três cartazes possivelmente utilizados em shows e na divulgação do artista. Em tais cartazes (há um exemplar dele autografado pelo próprio cantor e exposto na entrada da Fundação Teixeirinha), o Rei do Disco aparece trajado à gaúcho, abraçado ao violão. Imediatamente abaixo do nome TEIXEIRINHA, podemos ler “2 milhões de discos vendidos” e, na lateral do cartaz, “Record de vendagem no Brasil”. Mais abaixo, o pôster ainda traz a inscrição “Esclusivo (com “s” mesmo) de Discos Chantecler”.

 

Diversas músicas de “Disco de ouro” são lembradas hoje pelos fãs de Teixeirinha. Há notícias de que o LP ganhou algumas reedições nos anos seguintes. Em 2004, a Orbeat Music/Galpão Crioulo Discos, em parceria com a Warner Music, lançou “Disco de ouro” como o segundo volume da série Gauchíssimo. Até 2007, o CD foi comercializado. Hoje, apenas algumas poucas lojas na Internet possuem o disco em seus catálogos.


DISCOMENTANDO: “Rio Grande de Outrora” (1981)

Outubro 23, 2008
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O LP “Rio Grande de Outrora”, protagonista deste Discomentando, é um dos discos menos conhecidos de Teixeirinha. As canções gravadas nele são até hoje pouco divulgadas, o long-play parece não ter alcançado a mesma repercussão dos grandes sucessos do cantor e até a capa que envolve o vinil é uma quase desconhecida dos fãs (a que aparece no gráfico é uma adaptação).

 

Lançado em dezembro de 1981, dentro da estratégia projetada pela gravadora Chantecler para vender os discos de Teixeirinha no Natal, o “Rio Grande de Outrora” é o único LP com composições inéditas do Rei do Disco durante este ano (excetuando-se as gravações ao vivo em “A Grande Noite da Viola”). Como a maioria dos outros discos do “Gaúcho Coração do Rio Grande”, este traz 12 canções sobre temas e ritmos variados e com a participação de Mary Terezinha no vocal e no acordeão.

 

No começo do LP, uma surpresa: ao invés da faixa-título, optou-se pela composição folclórica Roda de meia caña, numa adaptação de Teixeirinha. No instrumental, uma boa mostra do que seria todo aquele disco, baseado em gaita, violão, contrabaixo e percussão. Na primeira faixa, Teixeirinha compõe dueto com Mary, numa gravação animada. A segunda canção, Meu tango triste, traz a participação de violinos e de um piano no conjunto instrumental. A letra fala sobre uma história de amor ao ritmo tangueiro. Um bom arranjo e uma boa interpretação dão a tônica certa à composição.

 

As duas canções seguintes voltam-se para temas tradicionais gaúchos. Rio Grande de outrora e Pingo tubiano (um xote e uma chamarra, respectivamente) são composições que se referem ao cotidiano gaudério, às proezas e ao orgulho às tradições. A faixa-título do álbum traz uma áspera crítica aos que debocham dos hábitos e costumes gauchescos. Já a outra canção faz uma homenagem ao pingo tubiano ofertado a Teixeirinha por Raimundo Bonna, amigo do cantor em Passo Fundo. Não se sabe se a história é verídica.

 

Fechando o lado A de “Rio Grande de Outrora”, temos O teu tapete – guarânia com participação de harpa e guitarra havaiana no arranjo e com tema relativo ao romantismo – e Norte e Nordeste – uma bonita homenagem às duas regiões mais distantes do Brasil em relação ao Rio Grande do Sul. Há uma curiosidade no que diz respeito a esta última faixa do lado inicial: Teixeirinha a teria composto depois de ler um livro sobre a vida do cangaceiro Lampião. Pelo teor da composição, pode-se ver que o cantor ficou em dúvidas com relação ao caráter do “Rei do Cangaço” (se era bandido ou herói), mas concluiu a história com um “acho que foi justiceiro”.

 

O lado B do álbum da Chantecler traz Crime de amor e Loirinha bonita como as duas primeiras faixas. Em ambas, o instrumental se repete, mas na primeira entram instrumentos de sopro que dão um efeito interessante à vaneira. Loirinha bonita, com a participação de Mary Terezinha, seria a última canção lançada por Teixeirinha em dueto ao lado de sua acordeonista. Apesar do disco “10 desafios inéditos” – que viria no ano seguinte – trazer a dupla em sua última performance, é em “Rio Grande de Outrora” que ambos cantam juntos pela última vez uma composição que não pertence ao gênero dos desafios.

 

Na seqüência, talvez a canção mais conhecida deste disco: Santa Catarina. A homenagem aos barrigas-verde, além de bonita, traz uma série de informações interessantes. A primeira dela é a de que seu sucesso se deu também pelo relançamento que a composição teve em 1994, no LP “Teixeirinha canta com amigos” (Warner), quando foi cantada pelo grupo Os Serranos em play-back com a voz de Teixeirinha. Outra curiosidade é que a faixa termina com os acordes de Prenda minha, clássico do folclórico gaúcho, numa possível homenagem ao mais ilustre dos catarinenses no mundo da música, o gaúcho Pedro Raymundo.

 

Mulher malvada e Meu violão abordam o romantismo novamente. Ambas são canções simples, com letra e música comuns. A novidade fica por conta de Meu violão, a primeira gravação de Teixeirinha a fazer uso da bateria. O ano, vale relembrar, é 1981. Possivelmente inclinado a seguir as tendências do mercado da época, a gravadora Chantecler começava a inserir a grande novidade da música regional daquele período em seu maior filão no gênero (o próprio Teixeirinha). Curiosamente, nas gravações seguintes a bateria não aparece novamente, ficando em seu lugar apenas a sempre utilizada percussão.

 

Por fim, “Rio Grande de Outrora” encerra com Adeus lindo rancho, a canção onde Teixeirinha se despede do seu tantas vezes cantado Rancho do Capivari. A propriedade havia sido vendida há pouco, mas a canção não repercutiu de forma tão marcante quanto as demais homenagens do cantor a sua fazenda preferida.

 

Não há muito o que dizer sobre “Rio Grande de Outrora”. Particularmente, o considero como o primeiro álbum da fase final de Teixeirinha. Desde “Menina Margarethe” (1980) até “Amor aos Passarinhos” (1985), foram oito discos long-play, dos quais alguns atingiram surpreendentes vendagens, mas dos quais também muitos não projetaram sucesso. Tudo indica que “Rio Grande de Outrora” seja um destes que alcançaram pouca repercussão.

 

Próximo Discomentando: “Disco de Ouro”


DISCOMENTANDO: "Amos aos passarinhos" (1985)

Setembro 29, 2008

O LP registrado na gravadora Chantecler sob o número 2.74.405.160 não é um disco comum. “Amor aos passarinhos”, como foi batizado o long-play, é o 49º contendo músicas inéditas de Teixeirinha. Infelizmente, é também o último.

Falar no último disco de Vitor Mateus Teixeira é viajar até o ano de 1985 e encarar o final de um importante ciclo na música regional gaúcha. “Amor aos passarinhos” foi gestado durante aquele sombrio 85, quando Teixeirinha ainda estampava as manchetes dos jornais, ora envolvido no polêmico desmanche da dupla com Mary, ora recebendo mais um disco de ouro. O LP anterior (“Quem é você agora…”) havia alcançado grande êxito, ultrapassando as 100 mil cópias vendidas. Superá-lo era a missão para aquele meio de década.

Mas algo não estava bem na vida de Teixeirinha. Numa entrevista em fins de 1984, ele revelava estar 9 quilos mais magro. De fato, sua aparência denotava certo cansaço. O ritmo de shows, outrora frenético, se reduzira. Teixeirinha dava sinais de abatimento. Era hipertenso, sobrevivera a um enfarto e abusava do fumo. Perto dos 60 anos, era um homem fragilizado, mas não abandonava o trabalho. Mesmo que se sentisse exaurido, continuava produzindo.

Supõe-se que pelos idos de abril de 1985, Teixeirinha visitou os estúdios da Gravações Elétricas S/A (detentora do agora selo Chantecler) e realizou aquelas que seriam suas últimas gravações profissionais. Dali, sairia o long-play “Último capítulo”, cuja música homônima ocuparia faixa de destaque. “Último capítulo” era um fox, uma canção que – possivelmente – não foi gravada. É curioso pensar que o título do disco se adequaria absolutamente ao momento em que ele seria lançado, caso tivesse sido levado adiante. Aquele LP seria, de fato, o último capítulo da brilhante trajetória fonográfica de Teixeirinha.

Ainda não se sabe por que “Último capítulo” passou a se chamar “Amor aos passarinhos”. O que se sabe é que Teixeirinha tinha pretensões de lançar o long-play em fins de novembro, numa nítida estratégia para abarcar as vendas do Natal (semelhante atitude já havia sido tomada um ano antes, com “Quem é você agora…”). No entanto, a saúde do cantor ameaçou seus planos. Depois das gravações, ele começou a perceber que algo de grave estava por vir. Uma pequena mancha no lábio inferior de sua boca, o incomodava há alguns anos. Quando surgiram os primeiros diagnósticos sobre o caso, as notícias foram as piores possíveis: Teixeirinha estava com câncer.

Quando o tumor foi detectado, várias outras áreas do corpo de Teixeirinha já estavam contaminadas. O pulmão, um dos pontos mais afetados, o impedia de prosseguir a carreira. Durante estes meses, o cantor procurou todos os recursos possíveis, mas nada poderia lhe trazer esperanças. Em agosto, ele fez sua última apresentação na TV. Em outubro, cantou para 5 mil pessoas em Santa Maria e, intimamente, se despediu dos palcos. Recolheu-se nos altos da Glória e esperou o desenrolar de sua história.

Enquanto Teixeirinha morria lentamente, a Chantecler trabalhava em “Amor aos passarinhos”. O disco ficou pronto durante uma das internações do cantor, no Hospital Lazzarotto, em Porto Alegre. A gravadora enviou uma cópia do material para que ele ouvisse. Atento, escutou e aprovou o resultado final. Quando sua filha Betha chegou ao hospital para visitá-lo, ele teria dito: “Tu gostou da música dos teus irmãos?”. O cantor referia-se aos passarinhos homenageados na primeira faixa.

“Amor aos passarinhos”, a canção, é uma vaneira à base de gaita, violão, percussão e contrabaixo, instrumentos que unidos aos violinos e ao saxofone, compõem o bonito arranjo instrumental de todo o disco. A faixa 1 é uma mensagem ecológica, uma homenagem aos pássaros que tanto encantaram Teixeirinha em seus anos de morador do bairro da Glória. É uma composição que expressa os últimos grandes momentos do cancioneiro de Vitor Mateus Teixeira.

As quatro faixas seguintes são românticas. O bolero “Com pena de mim”, além de extremamente bem orquestrado, tem letra impecável. “Seis e dez da tarde” é outra composição de peso, pois traz à baila um dos maiores dons do compositor Teixeirinha: o talento para montar cenários e descrever momentos com perfeição através da música. “Querendo chorar”, música que ganhou atenção da cantora Adriana Deffenti em 2003, ganha um caráter emocional e pessoal grande no contexto do disco, pois traça um desabafo. “Mulher fingida”, um rasqueado, remonta as canções que fizeram parte de toda a carreira do cantor: românticas, de ritmo acelerado e de variação nas tonalidades muito bem definida. A última composição do lado A, “De peão a fazendeiro”, conta uma história com início, meio e fim (ou pé, barriga e cabeça, como diria o próprio rei do disco), a saga de um peão que ascende na hierarquia do campo e se torna fazendeiro (depois de ter casado com a filha do patrão).

O lado B de “Amor aos passarinhos” começa com “Já me cansei”, uma bonita canção romântica cuja parte alta denota toda a carga dramática alcançada pelo intérprete. “Querência e cidade”, a composição seguinte, é um xote, no mais alto estilo de Teixeirinha. Na minha opinião, é a última grande gravação alinhada ao gauchismo na carreira do cantor. “Momentos de nossa vida” e “Menina de trança” apontam em suas letras a questão da reflexibilidade sobre o passado mais distante. Mesmo assim, são belas canções.

No arremate do disco, duas composições chamam atenção. A primeira, “Gaita e violão”, foi plenamente tomada pelos ouvintes como um desabafo de Teixeirinha que estaria, nesta canção, lamentando a separação de Mary Terezinha. A letra de “Gaita e violão” bem que se encaixa na visão daqueles fãs e admiradores que acreditam na “morte por amor” de Teixeirinha. O problema é que a composição não foi composta com base no rompimento do casal. Uma prova disso está no fato de que a canção já havia sido gravada nos anos 70 pelo regionalista Jorge Camargo e até mesmo pela própria Mary. Teixeirinha apenas resgatou “Gaita e violão” de seus acervos.

Pelo menos até o momento não se pode afirmar o mesmo de “Respondendo aos amigos”, composição que fecha “Amor aos passarinhos”. Parece clara a referência a Mary nos versos “Os amigos me perguntam / Todo instante, a cada hora / Pela mulher que foi minha / Aonde foi, onde mora?…”. Entretanto, afirmar que esta composição é uma referência ao fim da relação entre o rei do disco e a “princesinha do acordeão” é precipitado.

“Amor aos passarinhos” traz na capa e contracapa um Teixeirinha envelhecido e abatido. Trajado à gaúcho, ele aparece cercado por alguns símbolos do Rio Grande do Sul, como o chimarrão e o pala nas cores da bandeira farroupilha. É, sem dúvidas, um arroubo de gauchismo numa carreira que não foi tão alinhada ao tradicionalismo puro quanto se faz entender hoje.

O último LP de Teixeirinha, segundo relatos, chegou às lojas no dia 5 de dezembro de 1985. O “gaúcho coração do Rio Grande”, no entanto, não viu o sucesso do disco. Na noite anterior ao início das vendagens, Vitor Mateus Teixeira se despediu deste mundo em seu quarto, na casa da Glória, em Porto Alegre. “Amor aos passarinhos” acabou sendo um disco inédito e póstumo de Teixeirinha, alcançando muito sucesso e sendo lembrado até hoje por fãs e ouvintes assíduos.


ERRATA: "Meu nome é Corisco"

Setembro 13, 2008

Muito bem levantado pelo Celso um ato falho que cometi na última edição do “Discomentando”, referente ao LP “Canta meu povo”. A canção “Meu nome é Corisco” que saiu reeditada no LP “Teixeirinha canta com amigos” (Continental, 1994) não é cantava por Leonardo, conforme foi dito. Quem divide o dueto com Teixeirinha na versão mixada pela Continental é a dupla Zezinho e Julieta.

Leonardo divide a canção “Triste madrugada”.

Obrigado ao Celso pela lembrança!

DISCOMENTANDO: "Canta meu povo" (1977)

Setembro 12, 2008

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A julgar pela discografia de Teixeirinha, o cantor estava um tanto quanto “sem paradeiro” em relação à sua permanência nas gravadoras, no final dos anos 1970. Em 1975, ele gravara o LP “Pobre João – Trilha Sonora do Filme” pela Continental. No ano seguinte, pela primeira vez desde 1961, o cantor acabou não lançando um disco com composições inéditas (o mercado fonográfico ainda respirava com a ajuda de aparelhos, em função da crise do petróleo que fez escassear a resina com a qual se produzia o vinil). Em 77, um caso raro: o Rei do Disco terminou o ano com três LPs inéditos, cada um gravado numa companhia diferente!

Um destes três discos, o de registro nº 1.07.405.111, foi produzido pela Continental e recebeu o título de “Canta meu povo” (o lado B foi intitulado “Fronteira Gaúcha”). É sobre ele que falarei hoje.

“Canta meu povo” é um daqueles LPs dos quais se sabe pouco. Ele não figura entre os mais fáceis de se encontrar nos sebos e talvez nem tenha alcançado uma expressiva vendagem, pois suas canções não são as mais conhecidas pelo público em geral. A meu ver, este disco se insere num momento de instabilidade na carreira de Teixeirinha, quando ele parece estar querendo se afastar um pouco do modelo romântico que marcou sua discografia na primeira metade da década de 70. Os arranjos, a variação instrumental e as próprias temáticas de “Canta meu povo” parecem denotar isso.

A primeira faixa do disco – que, aliás, dá nome ao long-play – é uma marcha. Nela, são utilizados os elementos da marchinha, com destaque para os instrumentos de sopro e o coro. A letra da canção, animada por um refrão (“Canta meu povo, canta / Não torne a vida em tristeza / Canta meu povo, canta / Canta meu povo que a vida é uma beleza…”) parece uma tentativa do cantor em passar uma mensagem de otimismo à população, num período em que o Brasil mergulhava numa grave crise econômica, espécie de enxaqueca do “Milagre Econômico”. Como mostrarei mais adiante, esta não foi a única marchinha deste disco.

A canção seguinte (“Meu nome é Corisco”) remonta as paisagens do campo e evoca a figura do gaúcho livre e “sem rumo certo”. É uma bonita canção de ritmo valseado e de instrumentalização marcada por gaita, violão e guitarra. Possivelmente seja uma das músicas mais conhecidas deste LP, já que foi reeditada em 1994 num disco em que Teixeirinha aparece acompanhado por outros cantores (uma montagem, onde a faixa contendo “Meu nome é Corisco” é cantada por Leonardo).

As quatro composições seguintes são de cunho praticamente auto-biográfico. A marcha “A ordem é essa” expressa boa parte do pensamento de Teixeirinha e das proezas das quais ele tanto gostava de se vangloriar (em especial a valentia e o dom de cantar em improviso). Já as duas canções seguintes (“Sou quem sou” e “Nossa árdua carreira”) falam da vida do cantor e dos trabalhos passados para que ele e sua companheira, Mary Terezinha, alcançassem o sucesso. Por fim, “Vinte de Setembro” traz uma homenagem ao “Dia do Gaúcho” e, ao mesmo tempo, conta a história de um desfile que teria acontecido em Passo Fundo. Curioso é notar que nos versos deste xote, Teixeirinha fala que “a prova do desfile / ta na capa do disco”. De fato, tanto na capa como na contracapa do LP, o cantor aparece trajado à gaúcho e à cavalo, numa paisagem campeira. Se aquela é uma imagem do tal desfile ou não, é informação que desconheço.

Virando o disco, temos um lado B representativo. Para cada canção de estilo mais “gauchesco”, temos uma composição ou romântica ou voltada ao humorismo. A instrumentalização continua como no lado A: guitarra elétrica em quase todas as composições, instrumentos de sopro em determinadas faixas e o eterno dueto gaita/violão, acompanhado de perto pela eficácia do contrabaixo e da percussão. As temáticas é que variam um pouco: “Marcelita”, a primeira faixa desta lado, é uma marchinha quase infantil sobre uma vaca que se apaixona pelo touro da vizinha; “Quem planta o bem, colhe o bem” é o único dueto deste LP e reflete sobre a carreira de Teixeirinha e Mary, mostrando que, no meio de tantas alegrias, muitos obstáculos se projetaram; “Fronteira gaúcha” (na minha opinião a melhor música desta obra) é mais uma homenagem de Teixeirinha à fronteira do Rio Grande do Sul com os países platinos; “Eu quisera” remonta o tema romântico, seguindo a linha de exaltação à mulher amada; “No braço do meu pinho”, composição de extremo talento, é mais uma tacada genial do compositor Teixeirinha na qual ele homenageia o violão, grande “canteiro” onde ele plantou tudo, da Mary ao “pé de imposto de renda”; por fim, “Conselho aos ébrios”, como o próprio nome já revela traz uma série de aconselhamentos àqueles que vivem em função do alcoolismo, na tentativa de fazê-los abandonar o vício.

“Canta meu povo” é um dos LPs nos quais as composições aparecem assinadas (não se sabe porquê) por Victor M. Teixeira, e não por Teixeirinha como na maioria dos discos. A meu ver, é apenas um detalhe. O disco de 1977 foi lançado em CD em 1995, sendo o terceiro volume da série “Dose Dupla” (Warner). No entanto, nesta reedição, as faixas “Vinte de Setembro” e “Conselho aos Ébrios” foram excluídas por problemas de cronometragem. A íntegra do LP só chegou às lojas em 2003, sendo o volume 27 da série “Gauchíssimo” (Warner/Orbeat). Atualmente, é um disco esgotado.


DISCOMENTANDO: "Teixeirinha interpreta…"

Julho 26, 2008

Geralmente eu abro o “Discomentando” dizendo que o LP analisado é especial. Hoje, no entanto, eu diria que o disco de que vou falar é no mínimo excepcional. Vamos conhecer “Teixeirinha interpreta músicas de amigos”, long-play lançado em 1963 pela Chantecler.

Aquele foi o 6º LP de Teixeirinha num período de três anos. Ele já lançara discos de 78rpm onde cantava músicas de outros compositores, mas nunca gravara um long-play contendo canções de outros autores. Não se sabe de quem foi a idéia, mas em 63 ela se realizou: Teixeirinha homenageou letristas gaúchos, cantando xotes, tangos, rasqueados e outros ritmos reunidos no “Teixeirinha intepreta…”.

No lado A, foram gravadas as canções “Tomara”, “Cobra sucuri”, “Milonga do Calavera”, “Tímido”, “Laço de amor” e “Oh mamãezinha”. Em todas elas, a instrumentação básica ficou por conta de violões, gaita, percussão e, vez por outra, violinos e banjo. Destas seis composições – todas de grande qualidade estética – algumas merecem destaque. “Cobra sucuri”, por exemplo, foi composta por Gildo de Freitas. Mais do que isso: foi a canção que deu origem à chamada trova à distância, a guerra travada entre Gildo e Teixeirinha. Reza a lenda, que Gildo de Freitas fez a canção e deu a Teixeirinha para que este gravasse. Na mesma época que o disco foi lançado, Gildo lançava seu primeiro LP, onde já respondia a Teixeirinha. Estava iniciada a guerra!

“Milonga do Calavera”, composta pelo ilustre Luiz Menezes, é outra jóia do “Teixeirinha interpreta…”. Além de ser um “milongão” autêntico, a canção explora toda a qualidade vocal de Teixeirinha, que, na época, ainda sustentava com força o chamado “timbre de sino”. Ainda no lado A, outras duas composições chamam atenção: “Laço de amor” e “Oh mamãezinha” (a primeira de autoria da dupla Mojica/Brás de Oliveira e a segunda composta por Benedito Seviero e Luiz de Castro). Ambas parecem uma resposta às composições “Tiro de laço” e “Coração de luto” – sucessos de Teixeirinha. Na primeira, a história começa com o gaúcho cuja china foi malvada e que, por isso, voltou a usar o laço para conquistar outras prendas. A segunda, explora a temática da saudade materna. Como último destaque desta primeira face, ressalto a canção “Tímido”, de autoria de Teixeirinha e do(a) desconhecido(a) Ivani. Esta deve ser uma das poucas músicas compostas pelo “rei do disco” em parceria.

Virando o disco, temos “Porque será que não vem”, “Paulistinha”, “Pai João”, “Quando sopra o minuano”, “Artista da velha guarda” e “Sentimento profundo”. A primeira é da lavra de Demóstenes Gonzáles, compositor que se consagrou como parceiro de Lupicínio Rodrigues. Todas as outras composições são bonitas e exploram temas que vão da desilusão amorosa de um velho (“Pai João”) até uma o abandono da mulher amada (“Sentimento profundo” – aliás, um tango de primeira qualidade!), passando por temas regionais (como uma homenagem ao vento-símbolo do Rio Grande do Sul) e conselhos. A meu ver, é neste lado que se encontra a melhor canção deste LP: “Paulistinha”. É um xote, de instrumental muito bem executado (e simples: gaita, violão, banjo e percussão) e com interpretação monumental de Teixeirinha. Destacam-se os intervalos entre os versos, quando o “Gaúcho Coração do Rio Grande” se empolga com frases como “Chora gaita malvada!” ou “Ê, paulistinha bonita!”. Enfim, uma das pérolas da carreira de Teixeirinha.

“Teixeirinha interpreta músicas de amigos” traz uma outra novidade, além das canções de autorias variadas: neste LP, o artista não aparece na capa. Ao invés de sua imagem, uma iconografia de Zamboni (que seria?), ilustrando uma cena “típica” sulina – três gaúchos numa roda de chimarrão. Uma capa simples, encobrindo um disco esteticamente superior a algumas produções anteriores.

Infelizmente, “Teixeirinha interpreta…” ainda não foi remasterizado. Aliás, é difícil até mesmo encontrar LPs à venda e, mais ainda, fãs que possuam o disco. Das doze faixas contidas na obra, apenas duas (“Quando sopra o minuano” e “Cobra sucuri”) foram lançadas no formato digital e assim mesmo em CDs antigos e difíceis de encontrar. Por questão de direitos autorais, é possível que este disco não seja reeditado – infelizmente! Quem puder conhecê-lo, no entanto, não deve perder a oportunidade. É um dos melhores LPs de Teixeirinha na “geração 60”.

A análise do disco só foi possível graças à colaboração de Arnaldo Guerreiro (que me deu a oportunidade de conhecer os fonogramas originais). A imagem da capa faz parte do Acervo Teixeirinha, da Fundação Vitor Mateus Teixeira. Quem souber mais informações sobre o “Teixeirinha interpreta músicas de amigos”, escreva para chicocougo@gmail.com

Todos nós agradecemos!


DISCOMENTANDO: Carícias de amor (1970)

Junho 12, 2008

Quando completou 10 anos de carreira, Teixeirinha renovou o visual e lançou o disco “Volume de Prata”, LP de produção sofisticada e destinado a comemorar sua primeira década de sucessos. No ano seguinte, 1970, ele teve a árdua tarefa de produzir um long-play tão bom quanto aquele. Então, no primeiro semestre do ano em que o Brasil seria tricampeão mundial de futebol, surgiu “Carícias de amor”, quinta produção de Teixeirinha pela Copacabana.

Apesar do nome, “Carícias de amor” não é um disco 100% romântico. Muito pelo contrário. Em seu repertório, destacam-se peças variadas, com pouca repetição de ritmos e temas. Porém, o instrumental que serviu de base para o LP é o mesmo em praticamente todas as 11 faixas. Além disso, possivelmente por questões de cronometragem, este disco possui uma música a menos (somente uma canção apresenta menos de três minutos de duração).

Basicamente, o LP de código CLP-11603, traz diversas músicas de fácil assimilação. O disco começa com “Não é papo furado”, um xote onde se destacam os principais instrumentos presentes na gravação: violão, gaita e percussão (de triângulo, cascos de cavalo, “agê”, etc.). A composição é um misto de saudação aos fãs e provocação aos críticos, no mais alto estilo de Teixeirinha.

As duas faixas que se seguem no lado A de “Carícias de amor” são românticas e apresentam um estilo muito próprio, caracterizado pelo sofrimento de quem canta. No tango “Estradas que se vão”, Teixeirinha deixa de lado o tradicional ritmo “marcado” e parte para uma proposta mais moderna, inspirada nos tangos mais lentos e com ampla utilização de violinos. Na letra, ele conta sobre o dia em que encontrou sua amada pedindo-lhe perdão. A magia desta peça é a possibilidade que cria no ouvinte que pode “visualizar” as cenas descritas pelo cantor (“Tomei-lhe as mãos / e os seus joelhos descolaram-se do chão…”).

A terceira canção do álbum é “Só quero vingança”, uma guarânia que se utiliza de violino, gaita e violão. Esta é, sem dúvidas, uma das mais belas músicas gravadas por Teixeirinha – e também uma das menos lembradas. Ao ouvido minimamente treinado, fica claro que a composição é inspirada em “Vingança” de Lupicínio Rodrigues. A história fala sobre uma mulher que, desesperada, retorna a sua terra natal em busca do perdão do amado. Ela bebe e se desespera, mas ele não a deseja mais e, além disso, ri de tal situação num gesto de vingança.

“Tristeza”, a quarta canção do LP, é um samba cantado exclusivamente por Mary Terezinha. Gaita, violão, cavaquinho e pandeiro compõem um arranjo belíssimo com direito a breque e tudo mais o que caracteriza um grande samba. Já “Minha querida” é uma valsinha romântica e com bonito arranjo. Para encerrar a primeira face de “Carícias de amor”, um desafio de título “Briga bonita” faz a festa dos ouvintes. Desta vez, a história começa com uma guerra de rimas envolvendo as cidades de Passo Fundo e Bagé. No decorrer da canção, a dupla vai brigar em São Paulo e até o então presidente Médici e o apresentador Flávio Cavalcanti são citados durante a gravação.

Finalmente, abrindo o lado B, a faixa-título: “Carícias de amor”. Trata-se de um arrasta-pé com instrumental bem caracterizado pela ação de violino, cuja letra é de uma simplicidade imensa. No refrão (“Pega, pega, pega, pega / cachorrinho mordedor / vai morder devagarinho / o pezinho do meu amor”), fica evidente um direcionamento ao público infantil, elemento presente em Teixeirinha desde seus primeiros sucessos – “Não e não” e “Dou e dou” como exemplos maiores.

“Rancheira bonita”, “Azulão” e “Saudade do xote” compõem o “miolo” desta segunda parte de “Carícias de amor”. A primeira e a última são homenagens aos dois ritmos sempre presentes na carreira de Teixeirinha. “Azulão”, por sua vez, remonta uma história muito semelhante a de “Canarinho cantador” – antigo sucesso do “Rei do Disco”. Com exceção desta canção, as outras duas são as grandes contribuições deste disco aos ritmos regionalmente gaúchos.

Por fim, mais um desafio: “Bom de bola”. Agora, ao invés de defenderem Grêmio e Internacional, Teixeirinha e Mary Terezinha se engalfinham na briga por Corinthians e Palmeiras, no maior duelo do futebol paulista. O sucesso fica por conta das piadas envolvendo a torcida do “Timão” e a “italianada” palmeirense.

Um detalhe que não pode passar desapercebido é a capa de “Carícias de amor”. Nela, Teixeirinha aparece trajado como os cantores de tango (terno escuro e chapéu ladeado, à Gardel), num estúdio de gravação. Por detrás do cantor (que está abraçado a um violão), aparecem três pedestais para microfones e sete músicos reunidos em pequenos grupos. Com exceção de um dos instrumentistas (o que toca contrabaixo), todos os outros estão sentados tocando algum instrumento. São violões, cavaquinho e percussão. Exatamente atrás de Teixeirinha, encoberta pelo braço esquerdo do cantor, podem ser vistos os pés de uma mulher (usa sandálias brancas e de salto alto). Sobre as pernas da moça, um acordeom, o que nos faz pensar que só pode ser Mary Terezinha quem está ali. Na contracapa, só aparecem o nome das canções do disco e miniaturas de outras seis capas de LPs gravados por Vitor Mateus Teixeira na Copacabana.

Particularmente, creio que “Carícias de amor” não é o melhor dos discos gravados por Teixeirinha nesta fase de sua carreira (que, aliás, julgo ser a de maior qualidade). Contudo, sem dúvidas é um grande disco que – se não deixou uma música marcante como “Dorme Angelita” ou “O colono” – ao menos deu pérolas como “Não é papo furado” e “Só quero vingança” (em minha opinião, a melhor composição do álbum). De zero a dez, classificaria este LP com a nota sete, oito talvez. Até porque, os anos 1970 dariam títulos muito mais bem produzidos na carreira do “Rei do Disco”.


DISCOMENTANDO: “Guerra dos Desafios” (1984)

Maio 15, 2008
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Em 1982, o LP “Trovas”, da dupla Kleiton e Kledir, incentivou Teixeirinha a produzir um disco contendo dez desafios inéditos, cantados por ele e Mary Terezinha. Desde o fim dos anos 1960, os embates entre o “rei do disco” e a “menina da gaita” eram os principais responsáveis pelo sucesso da dupla. O disco, lançado pela Chantecler, trazia Teixeirinha e Mary em plena forma.

A boa vendagem de “10 desafios inéditos” fez com que a gravadora do “galinho” repensasse sua estratégia. A previsão era de que, a partir de 1983, um outro LP especialmente voltado para os desafios chegasse às lojas. Entretanto, nos dois discos seguintes Teixeirinha e a Chantecler obedeceram à fórmula convencional, isto é, exploraram canções que abordavam temas e ritmos variados.

Neste contexto, um fato marcou definitivamente o projeto de um segundo disco de desafios: em janeiro de 1984, Mary Terezinha e Teixeirinha encerraram – de forma até hoje polêmica – uma parceria pessoal e conjugal que já durava 22 anos. Pela primeira vez, desde 1961, o “rei do disco” estava sozinho.

Para suprir a falta de Mary no acordeom, Teixeirinha travou contatos com Alberto Manique (que já participara da elaboração de boa parte dos arranjos do LP “Que droga de vida”, lançado em 1982) e, mais tarde, com a jovem Adenir Terezinha – oficialmente, sua nova parceira. Porém, faltava uma voz, uma figura tão marcante quanto a de Mary na interpretação dos duetos e desafios. E a Chantecler queria um novo disco com trovas!

A solução para o problema veio do próprio cast da gravadora. A partir de conversas entre artistas e diretores, ficou acertado que a mineira Nalva Aguiar – cantora de sucesso no público sertanejo, reconhecida como “Rainha dos Caminhoneiros” – seria a parceira de Teixeirinha num LP contendo apenas desafios. Nascia aí o disco “Guerra dos Desafios – Teixeirinha e Nalva Aguiar”, único long-play dividido por Vitor Mateus Teixeira com outra intérprete (a exceção dos discos gravados ao lado de Mary, evidentemente).

“Guerra dos Desafios” (com o subtítulo “Minas Gerais X R.G. do Sul”) chegou ao mercado em meados de 1984, quando os jornais do Rio Grande do Sul deliciavam-se explorando (à exaustão, diga-se de passagem) o rompimento entre Mary e Teixeirinha. Como este seria o primeiro LP do gaúcho depois da separação, a imprensa acalentava imensa curiosidade em saber como, afinal, a separação seria tratada. Antes do lançamento, o jornal Zero Hora informava que o novo disco do cantor deveria vender muito, alçado pelas polêmicas que envolviam seu nome.

Eis, então, que o disco começou a circular. Na capa, um cenário meio real, meio forjado (com desenhos de placas sinalizando quadros e faixas nas quais se anunciava o grande embate de rimas entre a mineira e o gaúcho). Teixeirinha, devidamente pilchado e abraçado ao violão, aparece ladeado por Nalva, vestida com trajes que lembram os vaqueiros norte-americanos.

Assim como “10 desafios inéditos”, “Guerra dos Desafios” traz apenas uma dezena de faixas. A maior parte delas, entretanto, tem duração de três a cinco minutos, compensando – portanto – a falta das tradicionais doze músicas. O primeiro título é “Ferro a ferro”, uma música que já demonstra o que seria todo o disco: mudanças súbitas de tom (é visível a disparidade entre os tons de Nalva e os de Teixeirinha), desafios na linha tradicionalmente explorada pelo “rei do disco” e instrumentação básica de violões, gaita, percussão, baixo e – em alguns momentos – fagote, viola e guitarra. Neste início, Teixeirinha parece mesmo se divertir ao entoar mais uma vez o gênero que, desde 1966, era freqüente em seu repertório.

Como nos tempos de Mary, neste LP Vitor Mateus Teixeira também faz o papel de segunda voz quando cantando em dueto. Nalva, com sua voz potente e afinada, começa a segunda faixa, o arrasta-pé “Parada dura”, de letra mais “desaforada” (com expressões mais “saidinhas” da parte dos cantores). Este desafio, entretanto, se inclina mais às músicas românticas cantadas em dueto do que a uma autêntica guerra de rimas.

As outras três faixas do lado A obedecem a uma única determinação: é a tradicionalíssima “brincadeira da palavra”. Em “Na base do improviso”, Nalva dita uma palavra e Teixeirinha faz o verso. Já em “Nalva responde”, a ordem é invertida e o cantor – ao invés de falar a palavra – resolve cantar o desafio. Por fim, em “Perguntas e respostas”, Nalva faz diversas perguntas através dos versos, no que Teixeirinha responde. Neste jogo que lembra um verdadeiro interrogatório, são abordados – ora de forma divertida, ora de maneira séria – temas como o Exército Brasileiro, o machismo, a Seleção Brasileira de 1982, o meretrício, a guerra nas Malvinas e até o homossexualismo!

O lado B de “Guerra dos Desafios” começa com a mais aguardada faixa do LP, a trova “Reportagem”. Nela, pela primeira vez através do disco, Teixeirinha fala abertamente sobre a separação de Mary Terezinha. A música tem como idéia central o fato de que a “curiosa” Nalva Aguiar deseja esclarecer, afinal, o que aconteceu com a dupla. Para tanto, a mineira faz uma entrevista cantada com Teixeirinha, perguntando-lhe sobre os detalhes do rompimento e, ainda, sobre o que o cantor pensa do assunto.

Em “Segura as pontas”, faixa posterior, voltam os desafios – desta vez menos frenéticos e mais insistentes nas mesmas questões. Já em “Pra tudo haverá um jeito” – uma milonga – o disco parece recuperar o fôlego, embora a música também não seja uma trova no sentido literal e sim mais um dueto romântico. Aliás, o duo que explora os temas amorosos repete-se ainda em “Cantiga de amor”, a penúltima faixa do LP. Finalmente, “pra arrematar” – como diria Teixeira – é a vez de “Martelo na cabeça”, uma tentativa bem sucedida de reviver os clássicos “desafios do martelo” que marcaram tão bem a trajetória de Teixeirinha e Mary Terezinha.

“Guerra dos Desafios” pode ser considerado como uma tentativa relativamente bem sucedida de reviver os sucessos provocados pelas trovas. Entretanto, apesar da boa qualidade, consta que o LP não vendeu o esperado, o que não é de todo improvável. Não é bom esquecer que o cantor já não era mais o mesmo. Sua voz já começava a dar sinais de cansaço (isso já vinha ocorrendo desde mais ou menos 1980) e suas rimas tornavam-se mais repetitivas. Além disso, é inegável a falta de Mary no LP, seja na produção dos arranjos, seja na imposição de sua sempre afinada voz. O que restou foi um bom disco, porém sem a mesma magia das gravações anteriores.

Daí em diante Teixeirinha não gravaria mais desafios. Nalva Aguiar seguiu sua carreira de sucesso (estando presente na mídia até os anos 1990 e, recentemente, participando do programa “Rei Majestade”, promovido por Silvio Santos). Vitor Mateus Teixeira, longe das trovas, produziria apenas mais dois discos, os últimos de sua vida.