
Em meio às flores e aos fãs, Teixeirinha
Um menino, lá pelos seus 4 ou 5 anos de idade, carrega um ramalhete de flores e caminha apressado ao lado dos pais no corredor central do Cemitério da Santa Casa, em Porto Alegre. Curioso, ele se admira com uma pequena multidão que cerca um dos túmulos. “Pai, esse é o mais cuidado!” – exclama o pequenino. “Claro! Cantor… Todo mundo conhecia… Era do povão!” – esclarece o pai.
Cenas como esta e tantas outras fizeram parte das homenagens prestadas a Teixeirinha no último domingo, 2 de novembro, dia de Finados. Não foi um Finados típico em relação aos anos anteriores. O tempo não colaborou e circunstâncias até agora desconhecidas também ajudaram a transformar a data num marco da história de homenagens a Teixeirinha no cemitério.
Pela primeira vez em 23 anos, Gauchinha de Bagé - uma fã que sempre organiza a música e a homenagem ao cantor em sua sepultura – não apareceu. Segundo informações, ela está doente. Sem Gauchinha, não ouve música, exceto por alguns minutos, quando um violeiro ensejou uma breve homenagem cantando quatro canções do “Rei do Disco”.
Contudo, o silêncio surpreendente deste ano não afastou fãs, admiradores e a imprensa do local. Cassiano Ceruti e sua esposa chegaram ao cemitério pouco depois das 8h da manhã. Há 11 anos ele comparece às homenagens. Orgulhoso, ele mostra fotografias de sua casa, repleta de pôsteres e imagens de Teixeirinha. Começou a ouvir as músicas do “Gaúcho Coração do Rio Grande” antes dos 10 anos e não parou mais. Hoje, possui todos os discos, filmes e uma coleção grande de recortes de jornal e revista.
Quase todos os que passavam pelo corredor central do cemitério paravam para homenagear ou mesmo conhecer o túmulo de Teixeirinha. As crianças pergutam aos pais quem foi aquele homenzinho. Jovens demonstram admiração. De repente, forma-se uma roda: Teixeirinha era gremista ou colorado? Brizolista ou não? E a Mary, é viva? Quem era melhor, Gildo ou Teixeira? Eu conheci Teixeirinha, e você?
Defesas inflamadas, princípios de brigas, risadas… Tudo se mistura e por algumas horas aquele local não parece ser um cemitério, ele perde o caráter de espaço da paz e da tranquilidade e se transforma na tribuna de fãs “número 1″ que, exasperados, defendem idéias ou simplesmente posicionamentos. De repente a imprensa chega e alguns procuram se destacar. Nelson Pacheco (54 anos), é o preferido dos fotógrafos. Trajado à gaúcho, ele posa para as lentes da Zero Hora orando ou prestando reverência à estátua de Teixerinha.
Entre 8 da manhã e 4 da tarde, cerca de 200 pessoas passaram pelo túmulo de Vitor Mateus Teixeira. Alguns param e resolvem relembrar o ídolo. Outro passam, fotografam ou perguntam pelas homenagens prestadas anualmente e que, desta vez, não aconteceram. Alguns outros simplesmente cruzam pela sepultura lançando olhares curiosos. Mas ninguém passa incólume ante a completamente florida sepultura de Teixeirinha.
Nem Júlio de Castilhos, nem Plácido de Castro, nem a esposa de Rafael Pinto Bandeira. Muito menos o escultor Iberê Camargo, o músico Sidnei Lima ou o poeta Mário Quintana. Ninguém tem mais flores e visitantes do que Teixeirinha. Todos são unânimes: aqui – assim como na música gaúcha – ele também é rei.
Às vezes o movimento diminui. Ficam 4 ou 5 pessoas diante do cantor sorridente que parece dedilhar seu violão de frente para o sol. De repente, chegam mais 10, 15 pessoas. No meio da multidão, está Sebastião, um mineiro muito tímido, admirador de Teixeirinha desde os 8 anos de idade. Ele fita a estátua como se conversasse com ela. Tem todos os discos, assistiu a todos os filmes, acompanha tudo o que pode. Sebastião veio de Minas Gerais especialmente para homenagear – do seu jeito – o cantor do Rio Grande. Foram 18 horas de ônibus.
De longe também vem o senhor Benedito Selles, um simpático bageense que há mais de três décadas mora em Campinas, SP. Benedito se emociona ao contar sobre sua relação com Teixeirinha. Há 30 anos o cantor esteve em sua casa, em Foz do Iguaçu (PR). Tomou um café, conversou, cantou, tirou fotos ao lado de Mary Terezinha e da família de Benedito e depois foi embora. Foi o momento mais emocionante da vida do construtor que estava em Porto Alegre a trabalho e resolveu visitar o túmulo do ídolo no dia de Finados. Benedito conta, com os olhos marejados, sobre o quanto Teixeirinha é imporante em sua vida. “Quando ele morreu, eu amarrei todos os discos, coloquei num armário e não escutei por 2 anos… Tinha medo de chorar…” – revela. Sorridente, ele posa para uma bonita foto ao lado da última morada do cantor.

Benedito Selles veio de Campinas para ver o ídolo
Histórias, momentos de emoção, lembranças e saudade. Quem vai ao Cemitério da Santa Casa no dia de Finados encontra muito mais do que alguns fãs reverenciando Teixeirinha. Encontra vidas que se cruzam e se complementam pelo poder da música, do cinema, enfim, da arte popular, esta incrível forma de destruir fronteiras e aproximar pessoas.