FORA DE SÉRIE…

Desde o início da carreira, Teixeirinha sofreu duros ataques da chamada “crítica especializada” do Brasil. Enquanto a grande massa consumia avidamente seus discos e emocionava-se com a triste história de “Coração de Luto”, jornais e revistas acusavam o “rei do disco” de fazer uso do sentimentalismo das pessoas para promover-se.Um dos mais ferrenhos inimigos de Teixeirinha foi o polêmico apresentador de televisão Flávio Cavalcanti. Famoso por quebrar discos considerados ruins em seu programa de TV, o comunicador viu em Teixeirinha uma ofensa à boa música. O gaúcho, entretanto, revidou as ofensas de Flávio Cavalcanti e os dois travaram épicas batalhas no ar. As brigas logo elevaram a audiência dos programas de Cavalcanti e levantaram a venda de discos de Teixeirinha. Os dois perceberam e continuaram com a fórmula que rendia frutos para ambos.Como era de seu costume, logo Teixeirinha dedicaria canções à Cavalcanti. Em “Júri frustrado” (Sempre Teixeirinha, 1973), o cantor aconselha Flávio Cavalcanti a tirar férias para conhecer a música do interior, que é brasileira e decente. Já em “Na base do improviso” (Guerra dos desafios, 1983), o compositor revela que o apresentador sempre andava a sua caça, mas no fundo é boa praça.Entretanto, a guerra na TV rendeu um fato ainda mais pitoresco e digno de ser recordado. Em 1971, a gravadora Copacabana lança “Teixeirinha num fora de série”, um LP contendo 12 canções escolhidas pelo próprio Flávio Cavalcanti e interpretadas pelo cantor gaúcho. A capa do LP já é, no mínimo, inusitada: Teixeirinha e Cavalcanti aparecem apertando as mãos, num sinal de reconciliação! O conteúdo do disco, entretanto, acabaria transformando aquele num dos melhores LP’s da carreira de Teixeirinha.No lado A, encontramos alguns clássicos da boa música brasileira: “Vingança” (Lupicínio Rodrigues), “Ave Maria” (Erothides de Campos), “Beija-me muito” (Consuelo Velásquez), “Última inspiração” (Peterpan), “A volta do boêmio” (Adelino Moreira) e “O destino desfolhou” (Mário Rossi e Gastão Lamounier). Com certeza, nesta face do disco é bastante difícil dizermos qual a melhor interpretação, embora o samba de Adelino Moreira mereça destaque.No lado B do disco, continuam as boas canções: “Tristeza do Jeca” (Angelino Oliveira), “Sertaneja” (René Bittencourt), “Caminhemos” (Herivelto Martins), “Sempre no meu coração” (Ernesto Lecuona), “Bodas de prata” (Roberto Martins e Mário Lago) e “Cinco letras que choram” (Silvino Neto). Percebe-se que nesta parte são inclusas faixas com foco na vida sertaneja. Entretanto, o grande destaque fica por conta de “Sempre no meu coração”, versão brasileira de “Always in my heart”.O responsável pela seleção do repertório – o próprio Flávio Cavalcanti – escreveria na contracapa do LP: “Aqui está um disco que eu jamais poderia quebrar. Até porque fui eu mesmo quem sugeriu esta viagem de Teixeirinha por outros campos e vales, e essa identificação com a canção brasileira em dimensão nacional.” Na mesma contracapa, Teixeirinha e Flávio Cavalcanti aparecem tomando um “cafezinho”, ambos sorridentes. Acima, o título: “TEIXEIRINHA abre novas fronteiras”.O resultado final da obra mostraria que, polêmicas à parte, os dois se beneficiavam muito um do outro. Para Teixeirinha, foi a chance de cantar a MPB sem deixar de ser o “gaúcho coração do Rio Grande”. Para Flávio Cavalcanti, a certeza que ele mesmo anunciava: “A simples intenção deste disco é tão boa que merece um grande sucesso. E este já está garantido pelo imenso – indiscutivelmente imenso – público de Teixeirinha.”

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