MENINA DA GAITA

Muito se fala do indiscutível talento de Teixeirinha, seja em suas composições, seja em suas marcantes interpretações. Contudo, sabemos que a carreira do “rei do disco” não seria a mesma se não fosse o aparecimento daquela linda gauchinha de Bagé, aquela menina da gaita…
Teixeirinha já estourara nacionalmente com “Coração de Luto”, quando conheceu Mary Terezinha Cabral Brum, em 1961. Ela, então com 13 anos, vivia humildemente na fronteira do estado, trabalhando aqui e ali, colaborando na renda familiar. Desde cedo, desenvolvera um talento nato para a música, destacando-se no acordeom. Em pouco tempo passou a freqüentar programas de rádio e ganhou o epíteto de “Teixeirinha de Saias”, por interpretar o repertório do “gaúcho coração do Rio Grande”.
Em abril de 1961, quando Teixeirinha chegou à Bagé para realizar seu segundo show naquela cidade, uma multidão ensandecida aguardava o ídolo. Há pouco, Teixeirinha saíra do anonimato para tornar-se o maior fenômeno de vendas da história da música gaúcha. A menina Mary Terezinha, decidida a assistir à apresentação do cantor, era mais uma das tantas pessoas que lotariam o Cinema Glória naquela noite de 4 de abril. A diferença é que Mary se tornaria – em poucas horas – parte daquele show.
Antes do início da apresentação, ocorreria um concurso para premiar quem melhor tocasse as músicas de Teixeirinha no acordeom. Mary inscreveu-se na disputa, afinal, se vencesse poderia ajudar seus pais nas despesas daquele mês. Tocando “Briga no batizado”, a guria baixinha e de cabelos negros conquistou o público e arrebatou o primeiro lugar. Depois do concurso, o diretor da Rádio Cultura de Bagé chamou Mary e avisou que o gaiteiro de Teixeirinha – na época Ademar Silva – havia perdido o ônibus e não chegaria para a apresentação. Mary acompanharia Teixeirinha.
Em poucos minutos, Mary conheceu seu ídolo, fez um breve ensaio, subiu ao palco e levou os mil e seiscentos espectadores do show ao êxtase. Certamente, aquilo nunca acontecera nas apresentações de Teixeirinha. Um talento local ao lado do grande cantor! Dali pra frente, formava-se a dupla Teixeirinha e Mary Terezinha, talvez o mais famoso dueto da história do Estado.
Juntos, Teixeirinha e Mary gravaram mais de 70 LP’s e um número incontável de discos 78RPM. A dupla atuou ainda em 12 filmes, sempre nos papéis principais. Mary foi cigana, estudante, iemanjá… Mas sempre foi Mary Terezinha. Seu talento na gaita aumentou com o passar dos anos. Em pouco tempo ela passou a ser responsável por grande parte da produção dos discos de Teixeirinha, preparando arranjos e auxiliando no aprimoramento das composições do astro.
A partir de meados da década de 1960, iniciaram-se as gravações dos primeiros desafios, que se tornariam uma febre no Rio Grande do Sul inteiro. Agora, era a voz de Mary que se revelava. As “trovas” – como ficaram conhecidas – traziam verdadeiras guerras entre o casal. Mas no fim, tudo acabava na reconciliação dos dois.
A relação entre Teixeirinha e Mary Terezinha acabou ultrapassando o campo profissional: eles mantiveram uma união também fora dos palcos. Esta união, que durou 22 anos, gerou 2 filhos – Alexandre e Liane. Juntos, Teixeirinha e Mary percorreram os mais longínquos recantos das Américas, cantando, brincando e levando mais alegria a seus milhares de fãs.
Em 1983 a relação entre os dois passou por dificuldades, redundando no fim da dupla. Separaram-se tanto artística como afetivamente. Embora a imprensa tenha tratado o assunto com certo sensacionalismo, sabemos que os desentendimentos são comuns em qualquer situação. Sendo assim, não caberia fazermos qualquer juízo de valores sobre a separação.
O importante mesmo foi o legado que a dupla deixou em sua longa carreira. Depois da separação, ambos continuaram produzindo. Teixeirinha prosseguiu em carreira solo até falecer, em 1985. Mary, entretanto, percorreu alguns países, gravou novos gêneros e, no início dos anos 1990, converteu-se à doutrina evangélica. Em 1992, escreveu “A gaita nua” – sua autobiografia. Como cantora gospel seguiu fazendo sua “safoninha chorar” pelo Rio Grande afora. Hoje, ela ministra palestras em igrejas evangélicas, canta e, recentemente, gravou dois discos muito bem produzidos: “Mary Terezinha” e “A serviço do Rei”.
Num balanço sobre as carreiras de Teixeirinha e Mary Terezinha, alguns poderiam se arriscar a dizer que ele não precisava da acordeonista para alcançar o sucesso – como, de fato, ocorreu no princípio. Contudo, parece certo que, sem aquela menina da gaita, a carreira de Teixeirinha teria deixado de ter um toque especial. Numa de suas últimas entrevistas à televisão, Mary declarou algo que parece sintetizar tudo o que aqui falamos: “Aquela dupla formou um quadro: ele [Teixeirinha] foi a pintura; eu [Mary Terezinha] fui a moldura!”.

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