O BAIXINHO E OS BAIXINHOS

Teixeirinha rodeado de crianças depois de uma apresentação
Imagine os anos 1960. Naquela época, os aparelhos de televisão ainda custavam uma fortuna. Os computadores eram parafernálias gigantescas operadas apenas por técnicos altamente especializados. Jogos eletrônicos? Internet? Não, nada disso estava ao alcance das crianças. Por aqueles tempos, a diversão dos pequenos ainda era correr, pular, enfim, se movimentar. Os brinquedos estimulavam a imaginação: bonecas, peão, amarelinha…
Nos tempos em que brincar na rua ainda era considerado seguro e que não haviam as drogas e a criminalidade de hoje em dia, as crianças eram encaradas como adultos em miniatura. Quase não havia produtos exclusivamente destinados a elas (ao menos não tantos quanto hoje!). Também não existiam loiras seminuas e, tampouco, desenhos de pancadaria que distraíssem os pequeninos. Nem os grandes empresários haviam se dado conta de que os “baixinhos” (como ficariam conhecidas as crianças a partir dos anos 1980) renderiam tanto aos seus cofres.
Pois bem, em plenos anos 60, Teixeirinha (que apesar da idade seria um eterno baixinho) faria ousadas incursões ao exigente mundo das crianças. Não, ele não era nenhum “xuxo”. Suas canções eram, definitivamente, dirigidas ao público adulto. Falava de amores mal resolvidos, de decepções e de belas histórias de vida. Porém, em diversos momentos, o “Rei do Disco” lembrou-se dos pequenos e, mesmo inconscientemente, parece tê-los agradado.
Já em 1961, quando o “Gaúcho coração do Rio Grande” lançou seu primeiro LP, uma música tornou-se um grande sucesso. “Não e não” agradou a todos os segmentos de seu público, mas até hoje desperta interesse especial nas crianças (eu mesmo tratei de testá-la em uma de minhas sobrinhas!). Não é para menos: os versos da rancheira possuem todos os apreços hoje encontrados em músicas exclusivamente infantis. A linguagem é simples, o tema é inocente e cantá-la é extremamente fácil:
Eu gosto tanto da Mariazinha,
e ela diz que gosta mais de mim.
Eu estou vendo que este violeiro,
a vida de solteiro está chegando ao fim!
Só tem um termo que eu não desejo,
quanto eu peço um beijo
ela só diz assim:

Não e não e não
e não e não e não
e não e não!

“Não e Não” teve uma resposta no mesmo estilo e ainda em 1961. Um sinal de que a música fez sucesso entre os baixinhos, exigindo uma continuação? Talvez sim. O que importa é que “Dou e dou” também deve ter agradado – e muito – aos pequeninos:
Depois de tanto dizer não e não,
Mariazinha já acostumou.
Agora quando eu peço um beijinho,
ela diz:

Dou e dou e dou e dou!
Dou e dou e dou
e dou e dou e dou
e dou e dou!

Ah, mas não parou por aí! Em inúmeras canções de Teixeirinha podemos encontrar mensagens destinadas às crianças. Em algumas, entretanto, parece que a letra foi feita sob medida para elas. “Sai jacaré” (1969) é um bom exemplo:
Jacaré, sai do caminho!
Deixa o meu amor passar.
Jacaré, estou armado,
eu não quero te matar.
Jacaré sai do caminho!
Deixa o meu amor passar.
Mas é fácil citar outras. Em “Carícias de amor” (1970), os versos do refrão já dizem tudo: “Pega, pega, pega, pega / Cachorrinho mordedor / Vai morder devagarinho / O pezinho do meu amor!”. Outra muito boa é a aventura da vaquinha “Marcelita” (1977): “Estou sabendo qual o motivo da graça / Esse tourinho quando mugi me irrita / Eu descobri que ele anda apaixonado / Pela minha linda vaca Marcelita!”.
Bom, cachorrinhos, jacarés e vaquinhas à parte, sabemos muito bem que as crianças adoram explorar a própria imaginação e que geralmente criam estórias fantásticas. Cientes disso, Teixeirinha e Mary Terezinha não foram bobos e reservaram para o LP “Teixeirinha Show”, de 1963, uma faixa muito especial onde simulam uma partida de futebol realizada na floresta e disputada pela bicharada que por lá habita. O resultado foi o divertidíssimo “Futebol dos bichos”:
Dois quadros de futebol
inventaram no sertão.
O tigre escolheu seu quadro
Com bastante perfeição.

Foi o outro quadro escolhido
pelo doutor Rei Leão.
O quadro do Conde Tigre
foi assim a formação:

Sensacional? Pois é, parece que a imaginação de Teixeirinha também guardava uma criança capaz de fazer versos em cima de estórias sem pé nem cabeça, mas que devem ter feito muitas crianças imaginar a partida de futebol na selva envolvendo os times do Conde Tigre e do Rei Leão!
Bem, poderia citar músicas do agrado das crianças durante horas. E isso que nem entrarei no mérito dos desafios, sempre agradabilíssimos para qualquer idade (os favoritos de minha sobrinha, que sempre torce pela Mary). O importante, no entanto, é dizer que Teixeirinha parece ter encantado as crianças tanto quanto aos adultos. O próprio cantor se referiu aos baixinhos de forma carinhosa em inúmeras vezes. Para as quatro filhas que teve com dona Zoraida, Teixeirinha dedicou a milonga “Saudades do lar”, em 1964. Em dois versos, ele fala nas meninas:
Hoje, por exemplo, estou com saudades da família.
Das ‘filhinha’ e da esposa, senhora que muito brilha.
Me encontro viajando, cortando serra e coxilha,
soltando tristes suspiros na estrada que a gente trilha!
E mais adiante…
Quero chegar no meu lar, na perua buzinando.
Pra ver as ‘criança’ em festa na hora em que vou chegando.
Quero matar a saudade que está quase me matando.
Agora pára violão, não vê que eu estou chorando!
Para quem teve tantos filhos e conviveu no mundo do circo (sempre tão repleto de crianças), o “Rei do disco” parece não ter encontrado dificuldades para falar das crianças e para elas. Cantou e agradou a todos, de moços a velhos, mas deve ter deixado milhares de fãs pequeninos que, no futuro, continuariam acompanhando sua obra. Era, enfim, um cantor que sabia dirigir-se até mesmo ao exigente público infantil. E sabia falar a língua deles também! Para arrematar, um verso em homenagem às crianças, gravado em “Diálogo e repente”, última faixa do LP “Teixeirinha Show” (1963):
Minhas queridas crianças,
que agora estão me escutando.
Vão indo bem de estudo,
caprichem, vão estudando.

Vão todos pra cama cedo
e cedo vão levantando.
Só não faz pipi na cama
que a mamãe ta espiando!

Tire sempre nota alta,
seja obediente na escola,
não quero vocês na rua
correndo atrás duma bola.

Sendo uma criança boa
o seu papai se consola.
Deixa ir no matiné,
ver o moço de cartola.

Também pode ir no meu show
pra me ver tocar viola.
Mas de noite, por favor,
não encharque a camisola!

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