DISCOMENTANDO: Última Tropeada

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No dia 5 de janeiro de 1968, depois de uma gravidez de risco (interrompida antes do sétimo mês), nascia Alexandre, primeiro filho do mais popular casal de artistas do Rio Grande do Sul: Teixeirinha e Mary Terezinha. O menino nasceu fraco e precisou de cuidados redobrados até adquirir peso e saúde suficientes para escapar da morte. Naturalmente, sua mãe, Mary Terezinha, teve de deixar a carreira de lado para dedicar-se ao rebento.

Até então, desde aproximadamente 1963, era Mary quem cuidava dos arranjos musicais de Teixeirinha. Em comparação ao cantor, ela conhecia melhor os meandros da teoria musical e sabia como conduzir de forma exemplar a produção de um disco. Quando Mary Terezinha precisou afastar-se – pois a saúde do pequeno Alexandre lhe requeria tal situação – a produção do novo LP de Teixeirinha ficou ameaçada.

Provavelmente Teixeirinha já decidira o repertório do segundo disco a ser lançado em 1968 (o primeiro tinha sido “Doce Coração de Mãe”). Se tinha as letras, no entanto, precisava de alguém que as transformasse em música. A solução veio da gravadora Copacabana, com a qual o cantor mantinha um contrato exclusivo desde 1967: ele seria acompanhado por um dos mais respeitados artistas de então, o acordeonista Caçulinha, que mantinha seu próprio conjunto regional.

Caçulinha (ou Rubens Antônio da Silva) atuava profissionalmente desde 1948, já gravara vários discos e era frequentemente convidado para acompanhar os mais diversos artistas – de Caetano Veloso à Tonico e Tinoco. Após passar pelas gravadoras Todamérica e Chantecler, o músico finalmente se estabelecera na Copacabana (de onde sairia, anos depois, para compor o elenco dos programas apresentados por Fausto Silva até hoje). Agora, sua missão era acompanhar um dos maiores nomes da Copacabana.

Caçulinha continua atuando como músico no programa “Domingão do Faustão”

O LP “Última Tropeada”, lançado em 1968, sob o número CLP 11552, pode ser considerado o mais completo da carreira de Teixeirinha. Isto porque suas doze faixas são minuciosamente divididas entre os temas mais recorrentes da carreira musical do cantor: a orfandade, o pampa, as brigas com Gildo de Freitas, os desafios com Mary e as músicas românticas. Uma análise de ritmos também mostra a diversidade encontrada no disco. Na dúzia de músicas contidas no LP, pode-se ouvir tango, milonga, arrasta-pé, toada, etc.

De longe, “Última Tropeada” consiste num dos melhores discos gravados por Teixeirinha. Graças à eficácia de Caçulinha e seu Regional, os arranjos do LP são primorosos. O lado A, começa ao som de um instrumental atípico às músicas do “Rei do Disco”. Em “Papai Noel”, são utilizados instrumentos eletrônicos (possivelmente teclados), mas o violão aparece como base. Na faixa seguinte, “Última tropeada” (música que dá nome ao disco), outra novidade: antes da música, um poderoso ressonar de berrante. Nesta faixa, Mary Terezinha aparece pela primeira vez imprimindo sua voz logo nos primeiros versos e mostrando que, mesmo afastada do acompanhamento musical, atuaria como cantora no LP. Além do berrante, violão, gaita e um interessante acompanhamento de percussão (com triângulo!) executam a melodia, transformando esta numa das melhores músicas do disco.

A grande química do LP “Última Tropeada” são os audíveis improvisos de Caçulinha no acordeom. Para compensar uma perceptível dificuldade de Teixeirinha em acompanhar determinados ritmos, o músico se desdobra e contorna situações difíceis. Na canção “Foi tu que mexeu comigo”, uma das tantas respostas dadas à Gildo de Freitas, mais um show de Teixeirinha, Caçulinha e o Regional. No coro que entoa o refrão da bem-humorada música, está Mary Terezinha novamente.

As três faixas que encerram o lado A do LP talvez pudessem ser consideradas o maior mérito do disco. “Companheiros”, a primeira delas, é um tango inteligentemente executado com o acompanhamento de um tarol e da nervosa e sonora sanfona de Caçulinha. A quinta música é “Os dois lados da vida”, uma daquelas letras com a marca Teixeirinha. Nela, além da composição (uma das melhores!), um contrabaixo e (novamente) um teclado dão o toque de diferença. Para “arrematar” a primeira face do disco, “Quatro anos de ausência”, uma música cujo virtuosismo do sanfoneiro e a boa voz do cantor formam um conjunto perfeito.

Mas eu diria que o melhor ainda está por vir. Virando o disco, o ouvinte é tomado pelo eletrizante “Desafio do martelo” (o meu favorito!). Gaita, violão, triângulo, Teixeirinha, Mary e gargalhadas de uma suposta platéia fazem desta uma das melhores canções do disco – senão a melhor! A faixa 2 não foge à qualidade. Aliás, ela não é apenas a segunda música do lado B, mas sim um dos mais apreciados “clássicos” de Teixeirinha: “Tropeiro velho”. A declamação e a música em si dispensam qualquer comentário…

As três faixas que se seguem não alcançaram sucesso tão grande quanto “Tropeiro velho”, “Desafio do martelo” e “Última tropeada”. Mas, para quem gosta de romantismo, elas são um prato cheio. “Quando a velhice chegar” é um desabafo, uma reflexão do compositor sobre o que ocorreria no futuro quando ele, enfim, se tornasse um velho poeta. “Desiludido”, faixa número 4, descamba para mais uma história romântica (que, aliás, em muito lembra seu próprio caso com Mary Terezinha, que também participa da gravação). A penúltima faixa do LP, “Na paz de Deus”, é um primor em termos de arranjo, embora a letra seja mais modesta. Violão, gaita, percussão e um afinado coro compõem a canção.

Sabidamente as faixas mais importantes de um LP eram as que abriam e fechavam o mesmo (a primeira e última de cada lado). Cientes disso, os responsáveis pelo “Última tropeada” reservaram a derradeira música do lado B para “Fim do baile”, uma das mais incríveis gravações já realizadas por Teixeirinha e Mary Terezinha. Para começo de conversa, na música a dupla canta junto o tempo inteiro, com Mary na primeira voz e Teixeira fazendo a segunda. Entre os versos, arroubos do abundante talento de Caçulinha se misturam com animadas declarações entre os cantores que agem como se de fato estivessem num animado baile.

Dois indícios apontam a ação de Caçulinha e seu Regional executando a música ali mesmo no estúdio onde Teixeirinha e Mary gravavam. O primeiro é uma declaração de Teixeirinha do segundo para o terceiro verso: “Chora o gaiteiro!”. Sim, o gaiteiro Caçulinha e não a gaiteira Mary. O segundo indício comprobatório da presença do músico no estúdio não deixa dúvidas. Prestes a encerrar a gravação, os cantores se despedem e uma voz (que, possivelmente, é a de Caçulinha) diz: “Simbora!”. Neste instante, Teixerinha – atendendo a ordem do suposto maestro – repete, com outras palavras: “Vamo embora, Mary Terezinha!”. Os dois despedem-se e a mesma voz misteriosa, ciente de que o prefixo da música se aproximava do final, grita “Outra vez!”, no que Teixeirinha repete a frase para que parte do arranjo seja dobrado pelo acordeom.

Na capa de “Última tropeada”, Teixeirinha e Mary Terezinha aparecem num cenário campeiro (ele pilchado, ela de vestido vermelho e bolsa). No alto, uma arte traz o título do disco. Abaixo, em letras grandes, vê-se “TEIXEIRINHA”. Nas primeiras edições do LP (nas reedições posteriores a frase seria apagada), observa-se também a seguinte expressão: “Com acompanhamento de CAÇULINHA e seu regional”, comprovando a participação do sanfoneiro neste que é, indiscutivelmente, um dos melhores discos de Teixerinha.

Detalhe: o nome de Caçulinha na capa do LP comprova a participação do músico

“Última tropeada” até hoje não foi oficialmente remasterizado. No início dos anos 2000, a ES Discos (com sede em Porto Alegre), relançou o LP em CD, trazendo alterações na capa e incluindo duas “faixas bônus” para além das já existentes. Devido a problemas com o pagamento dos direitos autorais, a iniciativa não perdurou e, hoje, “Última tropeada” é considerada obra não remasterizada. Os CD’s da ES Discos saíram de catálogo em 2005.

6 respostas para DISCOMENTANDO: Última Tropeada

  1. Luiz Fernando Durante disse:

    Um excelente LP!
    Pena que o CD já não exista mais!

  2. Anonymous disse:

    Olá você poderia me indicar um site onde eu consiga baixar os filmes do Teixeirinha ?

    envie resposta no e-mail :

    morena_cap_66@hotmail.com

  3. LUIZ MEURER disse:

    Boa matéria, parabéns.

    não sei se interessa, mais gostaria de dizer que possuo o LP original “ÚLTIMA TROPEADA”

  4. Adrian disse:

    oi poderia me dizer como que faz para baixar a musica..Ultima Tropeada..
    me manda pelo e-mail é: adriansr2008@hotmail.com
    obrigado…

  5. Adrian disse:

    oi poderia me dizer como que faz para baixar a musica..Ultima Tropeada..
    me manda pelo e-mail é: adriansr2008@hotmail.com
    obrigado……………….

  6. antonio disse:

    Boa noite,achei muito interessante o blog,sobre o disco Última Tropeada LP, ele foi Lançado em CD Original,pela gravadora EMI,além das12 musicas contidas no LP acrescentaram mais 02 faixas Bônus,as musicas são:Chofer de táxi e Talvez a última canção,eu tenho este CD Original é claro,quem quiser as músicas deste CD é só entrar em contato, atbarreto@ig.com.br
    abrçs ANTONIO!!!!!!!!

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